
Tentou acelerar um pouco mais a moto para passar no sinal amarelo, mas não se pode exigir muito de uma 125cc.
Parou, desengatou e botou o pé esquerdo no asfalto. Aquele semáforo era o de três fases – dois minutos de espera o aguardavam.
- Era só o que me faltava…
Levantou a viseira do capacete e deixou o ar entrar por uns segundos.
Fechou os olhos. Tornou a abri-los.
Ao seu lado direito, o corredor de ônibus. Ele costumava compará-los a uma manada de elefantes brancos. Primeiro, porque essa era a cor da empresa de transporte. Segundo, porque é o que eles eram realmente: menos da metade da frota circulava pela cidade.
O sol já puxava as cobertas e alguns carros já trafegavam de lanterna acesa. O céu anunciava chuva – a garota do tempo não ousaria discordar.
Enquanto ele fitava o asfalto, outra moto parou ao seu lado. Era bem maior e mais potente que a sua. Cheirava a nova, inclusive. Mas o que despertou sua atenção foi o pezinho delicado que aterrissou no chão, feito pluma. Era um choque, uma quebra de paradigma.
Ergueu os olhos – mas não a cabeça – e pareceu sonhar. A cena era quase um erro. A criatura tinha o corpo feminino e delicado disfarçado por um macacão de motoqueiro surrado. As luvas grosseiras suprimiam mãos que poderiam ser de um anjo.
- Quase uma falha na matrix…
Quando ergueu a cabeça, os olhos de ambos se encontraram por meio segundo – o suficiente para fazê-lo estremecer. Lindos olhos de esmeralda, quase cristalinos. Quem mergulhasse neles correria o risco de se afogar.
Aquela visão sublime o levou a outro lugar, longe do barulho, do céu fechado, do semáforo de três fases. Estava voando, longe dali, de encontro ao silêncio inebriante, à paz absoluta.
Notou que algumas mechas do cabelo escapavam por baixo do capacete, embalados pela brisa. Lindos cabelos… brancos?
O tempo parou de vez.
Contemplou novamente a motoqueira destemida. O corpo grácil quase flutuava sobre a moto, que parecia ter mil vezes o seu peso. Os lindos olhos verdes eram ladeados por rugas risonhas, quase imperceptíveis sob o capacete. Sua verdadeira idade poderia revelar que ela era ainda mais frágil, que a cena estava ainda mais errada e sua suspeita ainda mais correta.
O anjo da moto possante acenou para ele, roncando o motor. O semáforo abriu. Atordoado, só agora ele se deu conta de que aquela linda criatura era mais especial do que ele imaginava, mas não conseguiria alcançá-la com sua 125cc.
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