Anjos

fevereiro 5, 2010

Sono. Era tudo o que João sentia naquela sexta-feira. Por mais que tentasse prestar atenção à aula, não conseguia. Era como se tivesse um tijolo sobre suas pálpebras.

Aquela mosca chata passou novamente a alguns centímetros de sua orelha. João deu um pulo da cadeira, testando a perna da mesa com sua própria perna.

- Aaahh! – e tapou a boca.

A classe desatou a rir. A professora, surpresa, interrompeu a aula.

- Algum problema, João?

- N-não, professora… pode continuar.

A professora, desconfiada, esperou acabar a balbúrdia e voltou a escrever no quadro negro.

João agora se sentia mais acordado do que nunca. A canela não latejava – batucava. O nível de água dos olhos subiu rapidamente, mas João conseguiu segurar firme. A Talita não poderia vê-lo chorando de novo.

Ah, a Talita. Ela sentava na segunda carteira da fileira encostada na parede. Perto dela, Joãozinho adquiria gagueira imediatamente. Crônica. E ficava vermelho feito um pimentão.

É por isso que ele sentava duas fileiras depois, algumas carteiras para trás. Aquela posição era estratégica para observá-la. E como ela era bonita. Cabelo lisinho, olhinhos brilhantes e um sorriso que o deixava de pernas bambas. E uma espontaneidade pouco comum a uma criança de 7 anos.

No dia anterior, enquanto a professora não estava na sala, o Cadu começou a fazer “piadas de Joãozinho”. A sala passou a tirar sarro da cara do João, que ficou fulo da vida. A raiva e a vergonha foram tão grandes que ele baixou a cabeça e escondeu o rosto na mesa.

Todo mundo continuou rindo, menos a Talita. Ela saiu de seu lugar e veio até ele, dando um cutucão de leve em seu ombro. Quando Joãozinho (como passou a ser chamado pela turma depois disso) levantou a cabeça e deu de cara com a Talita, o mundo parou. Ele nem percebeu as lágrimas em sua bochecha, agora pegando fogo. Sem dizer nada, ela pegou em sua mão e o levou para tomar água.

No caminho até o bebedouro, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Depois de beber água, ele olhou à sua frente e viu Talita sorrir. Suas mãos até perderam as forças, mas ele segurou firme o copo. Com algum esforço, ele conseguiu balbuciar um “Obrigado”.

- É divertido ver você tomando água.

- P-por quê?

- Você fica vesgo.

E sorriu com doçura, espantando toda a tristeza daquele dia.

À noite, ele não conseguiu dormir direito, pensando nos olhinhos dela. Ficou lembrando o que sentira enquanto ela o salvava da humilhação. Parecia não existir mais ninguém naquele pátio enquanto ela o rebocava com aquelas mãozinhas de nuvem. Ela só podia ser um anjo. Um anjo que tira o sono. Devia ser por isso que ele estava com os olhos tão pesados hoje.

Mal sabia ele que, por motivos familiares, Talita seria transferida pra uma escola em outro estado, apenas alguns dias depois daquele episódio – e que, no dia de sua despedida, ele faltaria à aula por causa de uma gripe.

Mas os anjos são assim mesmo. Quando a gente menos espera, eles batem as asas e deixam conosco apenas a lembrança de seus olhinhos brilhantes.

—-

.

.

-|T|-
.
.
* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


AA

janeiro 28, 2010

- Olá a todos. Eu sou o Valter, trabalho como mestre de obras.

- Olá Valter!

- Eu bebia cachaça todo dia. Na falta de cachaça, mandava ver na cerveja. Se não tinha cerveja, eu chegava até a tomar o xarope pra tosse do meu filho, que tem uma porcentagem de álcool. Já fui internado várias vezes e meu filho tem bronquite crônica por causa disso. Hoje faz dois meses que não coloco uma gota de álcool na boca.

Palmas. Vivas.

- Boa noite, eu sou a Elisa, cabeleireira.

- Boa noite, Elisa.

- Eu era viciada, desesperada por álcool. Abastecia o carro todo dia, só pra sentir o cheiro do combustível. Por dezesseis anos substituí água por cerveja – inclusive pra fazer comida. Cheguei até a fazer gelatina de álcool em gel pra saber qual era o gostinho. Hoje faz oito meses e três dias que eu não sei o que é ingerir álcool.

Aplausos entusiasmados.

- Gente, meu nome é Romero. Posso compartilhar?

- Boa noite, Romero. Compartilhe.

- Eu gostaria de dizer que hoje sou um homem diferente. Eu bebia três garrafas de vodka por dia. Bebia pura, com limão e sal, com pimenta, com goiabada, com chocolate, com adoçante, com rapadura, com maracujá, só pra citar alguns. Mas não era só vodka. Sempre me amarrei em champanhe, whisky, saquê, cerveja preta, conhaque, vinho tinto, vinho branco, rum, gim, hidromel, tequila e absinto.

Silêncio.

- Mas o álcool traz muitos males. Eu sempre bebi, só que sempre andei na linha; quando bebia não dirigia, mas não vem ao caso. Minha casa tem adegas com várias dessas bebidas, mas hoje está trancada. Aliás, minha casa está trancada. Sabem, a bebida sempre me proporcionou status, mas eu nunca soube muito bem controlar isso. O álcool me separou de meu filho e de minha esposa. Eles foram juntos para a Europa, mas o avião se perdeu no Atlântico.

Silêncio absoluto.

- Ainda sofro muito com isso. Eu os amava, mas o álcool não me deixava demonstrar isso. Então, depois da tragédia, quando eu não estava bebendo, eu estava chorando.

Comentários compadecidos.

- Pouco tempo depois dessa tragédia, meu pai, já idoso, o único que tentava me apoiar, sofreu um infarto fulminante quando se preparava para se mudar pra minha casa. Continuei tristemente sozinho. Cheguei a comprar um cachorro pra me fazer companhia, mas ele acabou sendo atropelado, quatro dias depois.

Estarrecimento. Soluços comovidos.

- Para completar a história, hoje minha empreiteira decretou falência, fruto de uma má administração de minha parte. Então, resolvi vir aqui compartilhar com vocês, já que faz algumas horas que eu não tomo um gole sequer de álcool.

Ninguém bateu palma. Entre constrangido e deprimido, o líder resolveu terminar a reunião mais cedo.

- Cara, essa história toda me deprimiu.

- Nem me diga. Eu era cabeleireira do Romero. Era.

- Isso não é nada… snif. Eu trabalhava praquele cara…

- Poxa…

Silêncio. Entreolhares.

- Cês Têm alguma coisa pra fazer agora?

- Não.

- Nem.

- Bora pro bar?

- Bora!

—-

.

.

-|T|-
.
.
* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


Azulinha

janeiro 20, 2010

Acordou, como de costume, às seis e meia. Sua primeira atitude não foi abrir os olhos, mas esmurrar o irritante rádio relógio. Virou-se para o outro lado, querendo só mais cinco minutos.

Sobressaltado, sentou-se na cama e viu que já eram sete e quinze – estava atrasado, como sempre.

Levantou-se com o coração a galope, rebocando a mente do mundo dos sonhos. Tirou o pijama com uma mão, enquanto a outra tentava simular uma cama arrumada. Colocou a calça, raptou uma camiseta da gaveta, calçou o tênis, esqueceu as meias. Tirou o tênis, tropeçou, beijou o chão com o cotovelo, deu um berro mudo. Colocou as meias, o tênis, a camiseta e voou para o banheiro. Tudo isso em menos de um minuto.

Abriu a torneira, escavou as remelas e tateou pelo tubo de pasta de dente. Na pressa de levar a escova à boca, a pasta saltou para a porcelana do lavatório, mas ele escovou os dentes mesmo assim.

Mesmo com a bile alvoroçada, tomaria café no escritório. Agarrou sua mochila, montou em sua Azulinha e pedalou para a sinfonia de buzinas matinais.

A Azulinha era sua companheira diária. Passava mais tempo com ela do que com sua mãe ou irmãos. Orgulhava-se por ser office-boy e considerava seu trabalho uma aventura.

No escritório de contabilidade em que trabalhava, todo mundo era gente boa. Menos a patroa, que só aparecia umas três vezes na semana pra pegar no seu pé por causa dos relatórios. Mas ele fazia tudo direitinho. Buscava pão na padaria, comprava risoles de carne para o Clodoaldo, tirava xerox, levava o alicate de unha da Zélia pra amolar, comprava cartucho recarregável para a impressora do seu Orlando, ia pagar conta no banco, além de pedalar a cidade inteira para levar e trazer documentos de clientes. Ele se sentia muito querido ali.

Mas agora era a parte do seu dia que ele mais gostava. Em meio ao hálito sufocante dos escapamentos, entre semáforos e faixas brancas, entre prédios e corações de pedra, ele se equilibrava em sua Azulinha, engolindo o vento da manhã com olhos aguados e agradecendo a Deus pelo dia.

Assim, absorto em pensamentos, ele atravessou a faixa de pedestres, sem notar que o motorista do carrão importado não teria a mínima intenção de respeitar o sinal vermelho.

***

No escritório, Zélia já se alvoroçava:

- Esse moleque está atrasado de novo. Eu falo que ele é irresponsável…

- Também não é pra tanto. O pior é eu ficar sem meu risoles. O café que eu tomei cedinho não foi suficiente.

- Por isso que ce tá barrigudo desse jeito, Clodoaldo.

- Gente, acabou meu cartucho. Cadê o boy?

- Não chegou ainda, seu Orlando.

- Mas eu preciso imprimir esses documentos agora! Ele tinha que estar aqui pra tirar cópia de tudo e ainda ir levar pra Receita Federal! Será que esse preguiçoso perdeu a hora?

- Pois é, quando a gente mais precisa...

- Também, cada um que você me contrata, Orlando. Não dá pra confiar direito nesse moleque. Até os relatórios dele têm erros de português!

- Ah, faça-me o favor, Marina. Esqueceu que eu também sou seu sócio? Não venha definir o rendimento do funcionário só por esses seus relatórios. Fora os atrasos, eu não tenho nada a reclamar dele.

- Mas hoje ele bateu o recorde, Orlando. Já são mais de oito e meia!

- E eu então, que continuo com fome? Se eu não estivesse tão ocupado, eu até daria um pulo na padaria da esquina. Mas isso, convenhamos, é trabalho dele.

- Alguém tem o telefone da casa dele?

- Não.

- Celular?

- Também não.

- Alguém sabe pelo menos o nome dele?

- A gente trata ele como “boy”…

- Eu sei que ele vem de bicicleta, uma que ele chama de Azulzinha.

- Você sabe o nome da bike e não sabe o nome do moleque?

- …

- Pois pra mim já passou dos limites. Se eu fosse você, Marina, mandava ele embora hoje mesmo. Já não é a primeira vez…

- Gente, acho que chegou alguém na recepção.

- E cadê o boy pra atender?! É brincadeira, viu?! Deve ser a dona Raquel, da casa de rações. Ela ficou de pegar uns documentos, mas o boy também não tirou as cópias e…

- Pode deixar que eu atendo, Zélia.

Enquanto Orlando quebrava a rotina e atendia o policial que estava na recepção, Zélia providenciava cópias de documentos, Clodoaldo ia até a padaria comprar risoles e Marina recebia uma ligação de seu marido dizendo que havia atropelado um rapaz de bicicleta.

—-

.

.

-|T|-
.
.
* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


Reforma

janeiro 11, 2010

Era uma vez um ônibus chamado Idéia.

O motorista do ônibus, o herói, parecia apenas ocupar a poltrona, enquanto algumas colméias de engravatados zumbiam ao seu lado, discutindo sobre qual direção tomar.

Meia dúzia de geléias paranóicas ocupava duas, até três poltronas – havia assento até para suas jóias.

Nos fundos, uma tevê era disputada por uma alegre e desnutrida platéia, que se acotovelava por causa de um assento.

O cobrador, Tramóia, ocupava metade do ônibus, arrecadando passagens de todos a cada 30 segundos.

Várias jibóias engravatadas transferiam o dinheiro do caixa aos seus bolsos, meias e até cuecas, mas ninguém notava. Também pudera, a platéia estava de costas, ocupada demais tentando prestar atenção à novela e ao futebol. Se algo era descoberto, rapidamente era varrido para baixo do carpete.

Subitamente, o motorista herói avisou a todos que seria feita uma reforma. O Ideia ficaria sem assento.

As geleias paranoicas e suas joias perderam os assentos, mas ganharam confortáveis espreguiçadeiras.

Nas duas últimas fileiras, o assento foi retirado e a plateia nem percebeu, até porque a maioria não sabia usar assentos.

O cobrador Tramoia e as jiboias engravatadas perderam os assentos, o que não fez muita falta, já que eles preferiam as cifras.

As colmeias que zumbiam no ouvido do herói não ligaram muito para a falta de assento. Preocupavam-se mais com a falta de assunto.

O herói continuou tranquilamente sentado. Afinal, ele sabe que seu assento está garantido até o final desse quilômetro. E, para quem não sabe diferenciar “c” de “ss”, isso já é uma bela vantagem.

—-

.

.

-|T|-
.
.
* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


Natal

janeiro 5, 2010

- Colher?!

- Colher!

- Luz?!

- Lux.

- Vê se economiza esses fósforos!

- ‘Tô’ passando o fogo ‘pro’ jornal.

- Que seja. Me passa tudo.

- Devo ir vigiar o corredor?

- É só olhar pelo espelho que ‘tá’ na grade.

- Ah… o retrovisor de cela.

- Vou fingir que não ouvi…

***

- Não ‘tá’ faltando ar aí embaixo? Ouvi dizer que o fogo consome oxigênio…

- Que papo é esse?

- Aprendi no livro que o carcereiro me deu.

- Mas que bonitinho! O bandidinho ganhou um livro do carcereiro!

- É um livro de curiosidades. E já te disse que sou inocente!

- Sei, como todo mundo aqui dentro.

***

- Acho que bati em alguma coisa.

- Não é o encanamento?

- Ainda não dá pra saber.

- Consegue sentir a textura, pelo menos?

- O quê?

- É PVC ou cobre? Porque o PVC pode ser mais moderno, mas o cobre é muito mais eficiente para instalações prediais de tubos e conexões, além de ser amigo do meio ambiente.

- Cara, ‘cê’ é algum tipo de garoto propaganda da Tigre, é?

- Tecnicamente, a Tigre não usa materiais de cobre…

- Ora, quer calar essa matraca?! E me passa logo outra colher, que esta já está torta de tanto cavar!

- Não ‘tá’ disponível.

- Como assim, criatura?

- Não quero mais fugir.

- O quê?

- Resolvi usar o cérebro em vez da força física. Ler este livro me abriu a mente. Existe uma forma mais inteligente de escapar daqui. Mas se ainda quiser continuar cavando, vai fundo que eu te encubro.

- Ora, então fique sozinho, seu medroso estúpido!

- Como quiser. Vou tampar o buraco com os lençóis. Boa sorte.

***

- Quem é que precisa daquele idiota, com aquele papo de livro? Pô, que calor dos infernos aqui… onde será que isso vai dar…? Vejamos, pelo mapa (droga, lá se vai outro fósforo), parece que, se eu continuar nesse ritmo, tomando cuidado com os horários que poderei escavar, em mais 4 dias eu consigo chegar até a saída de esgoto e nadar para a liberdade…! E aquele trouxa, que quer sempre fazer tudo certinho, vai continuar na cela, trancafiado até ‘sabe-se lá quando’. Deixe-me ver, mais dois palmos e começo a escavar para a direita e… meu Deus, cadê o ar? Estou sufocando aqui dentro… ‘tá’ difícil até ‘pra’ raciocinar… tenho que voltar e pegar mais fósforos… mas pra onde fica a saída? Socorro!

***

- Olha, seu carcereiro, agradeço imensamente pelo livro, viu?!

- Imagina. Você tem mostrado um bom comportamento, filho. Por isso foi escolhido com mais alguns presos para ganhar o indulto de natal. Pode ir pra casa ver sua família, mas lembre-se que está em condicional e tem que voltar no dia e hora marcados no cartão. Assim que você voltar, eu verifico as chances de reduzir sua pena.

- Obrigado, senhor. Serei imensamente grato. Até logo.

- Vá com Deus, filho.

***

- Ele é mesmo um bom rapaz, não?

- Certamente, senhor delegado. Certamente.

- Socorro!

- Ouviu isso?

- O quê?

- Pareceu um grito abafado.

- Tem certeza?

- Sim, parece que veio debaixo da cama.

- Estranho… ali só tem alguns lençóis embolados.

- Pois é. Não faz sentido. Deve ter vindo do corredor lá embaixo. Volte ao seu posto, carcereiro.

- Sim senhor. Feliz natal, senhor.

- Feliz natal, meu bom homem. Feliz natal.

—-

.

.

-|T|-
.
.
* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


2010

janeiro 5, 2010

Opa! Beleza?

Tô de volta.

Com um belo princípio de bursite pelo excesso de trabalho no final do ano, mas ‘tamus aí’. Fazendo fisioterapia e tudo.

Desejo a todo mundo um excelente 2010. Que esse seja o ano que a gente consiga alcançar grandes objetivos. O segredo? Estabelecer pequenas metas, por mínimas que sejam, a cada dia.

Eu já comecei tentando. Finalizei um texto que era pra ser postado antes do natal, ano passado.

Ele vem aí, no próximo post.

Diga o que acha, comente ae! Mesmo que você nunca tenha comentado antes, ou esteja neste blog pela primeira vez. Os comentários, por mais simples ou monossilábicos que sejam, me ajudam a continuar acreditando.

Enfim, sem mais delongas, meu post (que era pra ser) de natal vem logo aí em cima.

Feliz ano você novo.


Nota

novembro 30, 2009

Se é que alguém ainda acessa isso aqui, preciso deixar meus esclarecimentos:
Não tenho conseguido atualizar o blog há algumas semanas porque:
- Estava estudando para prestar um concurso.
- O volume de trabalho na agência está imenso. Nem sei se minhas férias de 10 dias no final do ano estão garantidas…
- Até meu corpo está sentindo… punho e ombros, principalmente.
- Some a isso o fato de eu estar há mais de 3 anos sem férias.
- Some a isso a estafa emocional.
- Isso tudo provoca um desgaste mental que, quando sobra um tempinho e dá para eu atualizar este site, eu simplesmente já estou cansado de usar a mente e ver letras na minha frente o dia todo.

Espero que essa crise passe.

Esta ‘coisa’ ainda está de pé.
Nem que seja pra voltar só no ano que vem.

Obrigado.
Agora, se me dão licença… :(


Coração

novembro 5, 2009

A vida é engraçada

Mas por que será

Que eu não estou rindo?

.

Viver é um mistério

Que se ramifica

Em vários outros

.

Perguntas demais

Respostas de menos

Silêncio ensurdecedor

.

E já que é

Para perguntar

Então lá vai

.

Porque será que algo

Que foi feito só para bater

Vive apanhando?

—-

.

.

-|T|-
.
.

* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


Blackout

outubro 19, 2009

blackout1

- E agora, nós vamos brincar de quê?

- De estátua, até a luz voltar.

- E se a luz não voltar? A gente vai ficar estátua pra sempre?

- Eu não consigo mexer os dedos…

- Solta o controle do vídeo-game, ué.

- Mas aí eu vou colocar a mão onde?

- Melhor não sugerir…

- Ô galera, bem que a gente podia brincar de adivinhar coisas no escuro.

- Como assim?

Leia o resto deste post »


Promessa

outubro 6, 2009

:.

.:

:.

Eu sou um cara nostálgico. Gosto de lembrar das coisas que já me aconteceram e deixaram uma marquinha, por mínima que seja. Como a cicatriz que eu tenho no abdômen desde pequeno, resultado de um fio de arame saliente e uma subida mal calculada na carroceria de um caminhão. Ou a pele mais porosa e esticada de um joelho que adorava lamber o chão. Essas lembranças divertem e dão uma saudade gigante da época em que as preocupações ficavam só para os adultos.

Mas também existem as lembranças que não são físicas e, por incrível que pareça, doem muito mais. Lembro, por exemplo, de quando eu estava na pré-escola e era o único que já sabia ler, escrever e desenhar. Depois da aula sempre as professoras me davam papel e lápis de cor – mas nunca devolviam meus desenhos – enquanto eu esperava minha mãe vir me buscar. E ela sempre vinha sorrindo, de saião rodado, flutuando em sua bicicleta ‘rosa pink’. Eu achava o máximo pegar carona na garupa e a aguardava ansiosamente. ‘Ela falou que viria me buscar – promessa de mãe’.

Se tem algo que aprendi com minha mãe é sorrir sempre, apesar de às vezes o coração gritar de dor. A melhor arma daquela guerreira da bicicleta rosa era o sorriso, embora muitas vezes eu a tenha visto chorando no canto, cabisbaixa, soluçando baixinho, falando com Deus. Com ela, aprendi muita coisa, sem precisar dizer palavra alguma.

Às vezes penso que ter uma memória detalhista – ou, simplesmente, uma memória melhor do que as pessoas que te cercam – é como ser imortal. As pessoas simplesmente não conseguem se lembrar de algo que, para você, ainda é vívido. Só você se lembra. É como ver as pessoas indo embora, te deixando eternamente só.

Na última sexta-feira, minha mãe completaria 47 anos, se não tivesse me deixado abruptamente em 2003, sem ao menos se despedir.

Mas enquanto houver lembranças, sua memória ficará mais viva do que nunca. ‘Promessa de filho’.

—-

.

.

-|T|-
.
.
* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.