Sono. Era tudo o que João sentia naquela sexta-feira. Por mais que tentasse prestar atenção à aula, não conseguia. Era como se tivesse um tijolo sobre suas pálpebras.
Aquela mosca chata passou novamente a alguns centímetros de sua orelha. João deu um pulo da cadeira, testando a perna da mesa com sua própria perna.
- Aaahh! – e tapou a boca.
A classe desatou a rir. A professora, surpresa, interrompeu a aula.
- Algum problema, João?
- N-não, professora… pode continuar.
A professora, desconfiada, esperou acabar a balbúrdia e voltou a escrever no quadro negro.
João agora se sentia mais acordado do que nunca. A canela não latejava – batucava. O nível de água dos olhos subiu rapidamente, mas João conseguiu segurar firme. A Talita não poderia vê-lo chorando de novo.
Ah, a Talita. Ela sentava na segunda carteira da fileira encostada na parede. Perto dela, Joãozinho adquiria gagueira imediatamente. Crônica. E ficava vermelho feito um pimentão.
É por isso que ele sentava duas fileiras depois, algumas carteiras para trás. Aquela posição era estratégica para observá-la. E como ela era bonita. Cabelo lisinho, olhinhos brilhantes e um sorriso que o deixava de pernas bambas. E uma espontaneidade pouco comum a uma criança de 7 anos.
No dia anterior, enquanto a professora não estava na sala, o Cadu começou a fazer “piadas de Joãozinho”. A sala passou a tirar sarro da cara do João, que ficou fulo da vida. A raiva e a vergonha foram tão grandes que ele baixou a cabeça e escondeu o rosto na mesa.
Todo mundo continuou rindo, menos a Talita. Ela saiu de seu lugar e veio até ele, dando um cutucão de leve em seu ombro. Quando Joãozinho (como passou a ser chamado pela turma depois disso) levantou a cabeça e deu de cara com a Talita, o mundo parou. Ele nem percebeu as lágrimas em sua bochecha, agora pegando fogo. Sem dizer nada, ela pegou em sua mão e o levou para tomar água.
No caminho até o bebedouro, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Depois de beber água, ele olhou à sua frente e viu Talita sorrir. Suas mãos até perderam as forças, mas ele segurou firme o copo. Com algum esforço, ele conseguiu balbuciar um “Obrigado”.
- É divertido ver você tomando água.
- P-por quê?
- Você fica vesgo.
E sorriu com doçura, espantando toda a tristeza daquele dia.
À noite, ele não conseguiu dormir direito, pensando nos olhinhos dela. Ficou lembrando o que sentira enquanto ela o salvava da humilhação. Parecia não existir mais ninguém naquele pátio enquanto ela o rebocava com aquelas mãozinhas de nuvem. Ela só podia ser um anjo. Um anjo que tira o sono. Devia ser por isso que ele estava com os olhos tão pesados hoje.
Mal sabia ele que, por motivos familiares, Talita seria transferida pra uma escola em outro estado, apenas alguns dias depois daquele episódio – e que, no dia de sua despedida, ele faltaria à aula por causa de uma gripe.
Mas os anjos são assim mesmo. Quando a gente menos espera, eles batem as asas e deixam conosco apenas a lembrança de seus olhinhos brilhantes.
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Escrito por Tiasley 




