Antônio

fevereiro 24, 2012

- Ficou sabendo do Antunes?

- O que tem ele?

- Teve piripaque.

- Como assim, piripaque?

- Piripaque. O médico disse que não era nada físico, no final das contas.

- Espera, agora é que não entendi mesmo.

- Distúrbio neurovegetativo.

- Mudou de assunto por quê?

- Aaai. É o nome que o médico deu pra o que ele tinha.

- Ah.

- É um surto de ansiedade e stress. O Antunes foi somatizando tudo até que o sistema nervoso dele se desequilibrou. É um problema mais psicológico do que físico.

- Sei.

- Os médicos dizem que é o famoso “piti”. A verdade é que ele foi guardando todas as emoções e elas passaram a gerar sintomas físicos, como dor no peito, falta de ar, essas coisas.

- Nossa! Mas esses sintomas não existiam de verdade?

- Não é bem isso.

- Continue.

- O fato é que não é um problema orgânico, mas psicológico. A própria pessoa cria esse transtorno como uma forma de tentar superar algo que não consegue, ou que não aceita.

- Quase um truque da mente.

- Sim. O resultado de um golpe emocional que a pessoa não é capaz de superar.

- Cabuloso.

- O transtorno só começa a ser solucionado quando a pessoa resolve enfrentar e superar o episódio que deu origem a ele.

- Interessante e complicado ao mesmo tempo. Vai saber o que se passa na cabeça do Antunes.

- É. Ele é meio fechadão mesmo.

- Mas dá pra notar que ele carrega uma grande dor.

- É. O olhar dele é sempre distante e o corpo, meio curvado, parece querer se proteger.

- O curioso é que a gente nunca vai entender a profundidade do ser humano, por mais superficial que algumas pessoas possam parecer.

- Filosófico isso.

- Você desconfia o que terá causado isso ao Antunes?

- Não faço ideia. Ele nunca conversou comigo. Só por e-mail, às vezes. Vai ver que ele nem sabe meu nome. A gente espera que ele se abra com alguém, algum dia.

- Complicado.

- Isso me fez pensar bastante. Aí, pesquisei o significado do nome Antunes. Sabe qual é?

- Não.

- Vem do grego, significa “inestimável”, “de grande valor”. É uma forma de escrever Antônio.

- Ei! É o meu nome! Antônio Oliveira!

- Nossa, eu só te conhecia por Oliveira! O meu também é Antônio! Como é que você nunca me disse isso?

- Ué, a gente nunca conversou tão demorado como hoje. Só por e-mails e nas redes sociais.

- Puxa, é verdade. E olha que trabalhamos juntos há quase três anos, Antônio.

- Tem razão, Antônio. Hahaha.

- …

- E você também tem alguma dor, Antônio?

- É, bem… ora, quem não tem?

- É verdade. Desculpe, mas talvez você não queira falar sobre isso.

- A gente nunca fala, né?

- Melhor voltar ao trabalho. Lá se foram “inestimáveis” 10 minutos.

- Claro.

- Depois a gente troca e-mails com ideias de como ajudar o Antunes.

- Boa ideia!

- Até logo, Oliveira.

- Até mais… Antônio.

———–

-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.


Aqui mesmo

fevereiro 16, 2012

Bem, confesso que ensaiei essa “volta” muitas vezes, desde que parei.
Mas acho que chegou o momento de voltar a postar textos aqui. Nem que seja só para eu mesmo ler, quando achar que nada do que faço é relevante.

Planejei contar tudo o que se passou desde o meu último post aqui. Como, por exemplo, o fato de eu ter testemunhado um verdadeiro milagre, quando minha tia se recuperou de uma situação gravíssima, saiu da UTI e voltou pra casa no começo de 2011. A mesma tia que, no começo desse ano, foi internada novamente – dessa vez, sem alta e sem volta (o Pai precisava mais dela lá em cima do que aqui embaixo). Eu poderia contar que estou em outra agência, que passei por períodos bem conturbados no final do ano passado, ou que fiz o curso em São Paulo, na Escola de Redatores, que me ajudou a acreditar novamente na “palavra”.

Poderia contar muita coisa que nem vem ao caso. Quem é que consegue contar tudo o que aconteceu, quando reencontra um amigo que não vê há muito tempo?

Mas posso dizer que, nesse período, escrevi muita coisa. Talvez eu tenha amadurecido; talvez eu perceba que preciso reaprender a cada dia. O fato é que pretendo voltar a postar aqui meus textos ou o que quer que seja, independente se alguém vai ler ou não.

E pretendo dar mais um “ajeitada” no blog, colocar desenhos, rascunhos, músicas que eu tiro no piano, etc. Mas que seja espontâneo, sem preocupação com prazo (já basta o dia a dia na agência de propaganda), estatísticas ou autocobrança.

E, se é que eu pretendo tudo isso, pelo menos este post já é um bom [re]começo.

É bom estar de volta.
E que a palavra corra solta.


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