
- Ficou sabendo do Antunes?
- O que tem ele?
- Teve piripaque.
- Como assim, piripaque?
- Piripaque. O médico disse que não era nada físico, no final das contas.
- Espera, agora é que não entendi mesmo.
- Distúrbio neurovegetativo.
- Mudou de assunto por quê?
- Aaai. É o nome que o médico deu pra o que ele tinha.
- Ah.
- É um surto de ansiedade e stress. O Antunes foi somatizando tudo até que o sistema nervoso dele se desequilibrou. É um problema mais psicológico do que físico.
- Sei.
- Os médicos dizem que é o famoso “piti”. A verdade é que ele foi guardando todas as emoções e elas passaram a gerar sintomas físicos, como dor no peito, falta de ar, essas coisas.
- Nossa! Mas esses sintomas não existiam de verdade?
- Não é bem isso.
- Continue.
- O fato é que não é um problema orgânico, mas psicológico. A própria pessoa cria esse transtorno como uma forma de tentar superar algo que não consegue, ou que não aceita.
- Quase um truque da mente.
- Sim. O resultado de um golpe emocional que a pessoa não é capaz de superar.
- Cabuloso.
- O transtorno só começa a ser solucionado quando a pessoa resolve enfrentar e superar o episódio que deu origem a ele.
- Interessante e complicado ao mesmo tempo. Vai saber o que se passa na cabeça do Antunes.
- É. Ele é meio fechadão mesmo.
- Mas dá pra notar que ele carrega uma grande dor.
- É. O olhar dele é sempre distante e o corpo, meio curvado, parece querer se proteger.
- O curioso é que a gente nunca vai entender a profundidade do ser humano, por mais superficial que algumas pessoas possam parecer.
- Filosófico isso.
- Você desconfia o que terá causado isso ao Antunes?
- Não faço ideia. Ele nunca conversou comigo. Só por e-mail, às vezes. Vai ver que ele nem sabe meu nome. A gente espera que ele se abra com alguém, algum dia.
- Complicado.
- Isso me fez pensar bastante. Aí, pesquisei o significado do nome Antunes. Sabe qual é?
- Não.
- Vem do grego, significa “inestimável”, “de grande valor”. É uma forma de escrever Antônio.
- Ei! É o meu nome! Antônio Oliveira!
- Nossa, eu só te conhecia por Oliveira! O meu também é Antônio! Como é que você nunca me disse isso?
- Ué, a gente nunca conversou tão demorado como hoje. Só por e-mails e nas redes sociais.
- Puxa, é verdade. E olha que trabalhamos juntos há quase três anos, Antônio.
- Tem razão, Antônio. Hahaha.
- …
- E você também tem alguma dor, Antônio?
- É, bem… ora, quem não tem?
- É verdade. Desculpe, mas talvez você não queira falar sobre isso.
- A gente nunca fala, né?
- Melhor voltar ao trabalho. Lá se foram “inestimáveis” 10 minutos.
- Claro.
- Depois a gente troca e-mails com ideias de como ajudar o Antunes.
- Boa ideia!
- Até logo, Oliveira.
- Até mais… Antônio.
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Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.
Coisa fina. Quanta sensibilidade.
Coisas que a vida ensina…