
Seus modos eram caricatos.
Exagerava nos atos de cordialidade e economizava nas palavras.
Dizia que os gestos falam por si só.
Se passasse pelo corredor da ala do cafezinho, ele se contorcia feito minhoca com medo de anzol – só pra deixar a colega passar. No ônibus, procurava senhoras em pé no corredor, só pra ceder o lugar. O problema é que a maioria delas recusava, estranhando a mesura que ele fazia.
Uma simples gentileza, praticada por ele, quase se tornava uma ajuda humanitária.
Mas naquela sexta-feira, ele chegou chutando tudo. Esbarrou com o porteiro e nem deu “bom dia”. Entrou no elevador e não segurou a porta pra moça apressada. Ignorou o seu oitavo andar e foi parar no décimo quinto.
Era onde ficava a sala do chefe.
Entrou sem bater na porta, interrompendo uma reunião íntima com a secretária. Antes de qualquer protesto ou explicação, encostou o dedo na ponta do nariz bolota do chefe e foi logo dizendo: “O senhor é um completo idiota”.
Não pediu licença para sair. Desceu pelas escadas. Correndo.
No saguão pulou a catraca e ganhou a rua, desaparecendo.
Mas na segunda-feira, lá estava ele. Chegou mais cedo, menos exagerado e ainda menos falante. Chegou até a baia 35 e começou a recolher os objetos de sua mesa.
Em poucos minutos, limpou a área.
Após apertar a mão de cada um, pegou sua caixa de objetos, lambeu o recinto com olhar nostálgico e sorriu, chamando o elevador. Um colega mais animado começou a puxar palmas, contagiando o andar todo.
Quando a porta do elevador abriu, as palmas emudeceram. Era o chefe. Ele nunca havia visitado o oitavo andar.
Milhares de pensamentos sapatearam na cabeça de todo mundo. Mas o chefe abriu um sorrisão largo para o ex-colega deles e o convidou para juntar-se a ele no elevador.
Nenhuma palavra. Ninguém respirava. Ninguém entendia.
Ao invés de apertar o botão do andar onde ficava o RH, o chefe apertou o décimo quinto, enquanto apertava a mão do mais novo promovido da empresa.
Coincidentemente, a secretária entrou naquela sala, arregalou os olhos quando viu os dois sujeitos no elevador e resolveu descer pela escada, só pra fazer um exercício.
Entre os três, nada mais precisava ser dito. Os gestos falam por si só.
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Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.
Escrito por Tiasley 





