Décimo quinto

abril 13, 2012

Seus modos eram caricatos.

 

Exagerava nos atos de cordialidade e economizava nas palavras.

 

Dizia que os gestos falam por si só.

 

Se passasse pelo corredor da ala do cafezinho, ele se contorcia feito minhoca com medo de anzol – só pra deixar a colega passar. No ônibus, procurava senhoras em pé no corredor, só pra ceder o lugar. O problema é que a maioria delas recusava, estranhando a mesura que ele fazia.

 

Uma simples gentileza, praticada por ele, quase se tornava uma ajuda humanitária.

 

Mas naquela sexta-feira, ele chegou chutando tudo. Esbarrou com o porteiro e nem deu “bom dia”. Entrou no elevador e não segurou a porta pra moça apressada. Ignorou o seu oitavo andar e foi parar no décimo quinto.

 

Era onde ficava a sala do chefe.

 

Entrou sem bater na porta, interrompendo uma reunião íntima com a secretária. Antes de qualquer protesto ou explicação, encostou o dedo na ponta do nariz bolota do chefe e foi logo dizendo: “O senhor é um completo idiota”.

 

Não pediu licença para sair. Desceu pelas escadas. Correndo.

 

No saguão pulou a catraca e ganhou a rua, desaparecendo.

 

Mas na segunda-feira, lá estava ele. Chegou mais cedo, menos exagerado e ainda menos falante. Chegou até a baia 35 e começou a recolher os objetos de sua mesa.

 

Em poucos minutos, limpou a área.

 

Após apertar a mão de cada um, pegou sua caixa de objetos, lambeu o recinto com olhar nostálgico e sorriu, chamando o elevador. Um colega mais animado começou a puxar palmas, contagiando o andar todo.

 

Quando a porta do elevador abriu, as palmas emudeceram. Era o chefe. Ele nunca havia visitado o oitavo andar.

 

Milhares de pensamentos sapatearam na cabeça de todo mundo. Mas o chefe abriu um sorrisão largo para o ex-colega deles e o convidou para juntar-se a ele no elevador.

 

Nenhuma palavra. Ninguém respirava. Ninguém entendia.

 

Ao invés de apertar o botão do andar onde ficava o RH, o chefe apertou o décimo quinto, enquanto apertava a mão do mais novo promovido da empresa.

 

Coincidentemente, a secretária entrou naquela sala, arregalou os olhos quando viu os dois sujeitos no elevador e resolveu descer pela escada, só pra fazer um exercício.

 

Entre os três, nada mais precisava ser dito. Os gestos falam por si só.

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Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.


Aconteceu na pracinha

julho 30, 2010

Aconteceu na pracinha, que fica em frente à agência. É um desses momentos de descontração, em que alguém puxa a persiana, vê uma cena engraçada e chama o resto pra olhar. Mas apenas assistir não tem graça, o legal mesmo é dublar a cena e rir muito (afinal de contas, a vida não é só tela de computador). Pena que não deu para tirar foto delas. Mas coloquei aí em cima uma foto da praça.


Eram duas senhoras, em uma cena, no mínimo, curiosa: ambas agachadas no meio-fio, procurando não-sei-o-quê. Na grama da pracinha, um jornal, um casaco e um ramo de alguma planta. O resto, a imaginação comanda:

- Comadre, escuta… o que é que você procurando aí?

- Você não vai acreditar… Achei duas moeda de um centavo pra coleção do Jorge Lineu!

- Haha (cof, cof). Que beleza.

- Só não conseguindo catar, viu?! sem unha pra isso…

- De quem é esse totó aí?

- Hein?!

- Esse cachorro aí, no meio da rua?

- Pensei que fosse seu.

- Comadre, vem pra calçada que o carro querendo estacionar aí.

- Hein?!

- O carro.

- Ah, agora ele vai esperar eu catar essa moedinha aqui…

- Vem, totó.

- Consegui! Ai, minhas anca… que calçada alta.

- Comadre…

- Sim?

- Tem alguma coisa errada com essa planta aqui…

- Deve ser aluz… anuci… alucinósna.

- Hahaha (cof, cof)… o certo é alucinóssa.

- Nossa… hehehe (cof, cof)… Ai!

- Que foi?

- Caiu minha moedinha.

- Na grama?

- Acho que sim. Ajuda a procurar?

- Mas ce sabe onde foi que caiu?

- Na grama, ué.

- Mais ou menos por aqui?

- É… em algum lugar por aí…

- Eita, que ficou difícil… ruim das vista.

- Olha, o totó achou! Não come não! Totó mau!

- aqui, minha fia. Toda babada, mas aqui.

- Que nojo… e se esse cachorro tiver doença?

- Não me importo! Vai ser mais uma pra coleção!

- Mais uma doença?

- Não, mais uma moeda! Esse totó aí tem coleira, é vacinado.

- Como sabe?

- Ele tem carinha de vacinado, olha só…

- Hehehe… (cof, cof). É não é que tem mesmo?

- Não se preocupa.

- certo, comadre. Então pega o teu casaco e vamo embora.

- Vamo. Pega o teu jornal. E não esquece do galhinho…

- Uffff… ai, minha coluna. aqui o jornal.

- E aqui o casaco.

- E o galhinho? Quem pega?

- Ai, deixa que eu pego.

- Pronto. Peguei o galhinho e o casaco.

- Ih, mas caiu um botão…

- Ai, minhanossinhora, o casaco que era da minha nona. Me ajuda a achar o botão…

- E onde eu deixo o jornal?

- Embrulha a planta com o jornal e me ajuda a achar o botão.

- Pronto. Mas caiu minha moeda.

- Achei o botão.

- Caiu a planta.

- Achei a moeda.

- Caiu o casaco.

- Peguei a planta, mas caindo as folha…

- Não desperdiça. Pega elas e põe dentro do jornal.

- Peguei o casaco.

- Peguei as folha.

- Sai, totó.

- Vamo indo, comadre, já é quase meio-dia. Hora de preparar a janta.

- Vamo (Cof, cof). Ai, minhas anca.

- Essa pracinha até que é bem cuidada, comadre?

- É. Ainda bem que tem piso firme em volta.

- Ops, caiu o botão. Me ajuda…

- Ih, caiu o jornal.

- Cadê minha moeda?

- Volta aqui, totó!

E, assim, agachando-se pesadamente de metro em metro, elas dobraram a esquina, deixando para trás uma porção de folhinhas e uma pá de risadas.

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* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.


Farelo

julho 8, 2010

- Eu já tomei o comprimido?

- Não sei, você é que tem que saber.

- Pois é, eu trouxe e deixei em cima da mesa, pra aproveitar o café com leite.

- Ih, mas dizem que não é bom beber comprimido com leite, ? O melhor mesmo é com água.

- E quem é que consegue beber água assim que acorda?

- Bom, isso é verdade.

- …

- Dizem que beber água logo cedo é sinal de ressaca.

- É, dizem. Será que é verdade?

- Não sei. Quer pão com manteiga?

- Quero.

- Quente ou frio?

- Quente.

***

- Estranho…

- O quê?

- Eu não me lembro de ter tomado o comprimido.

- Olha ele aí, perto da tua mão esquerda!

- Ah, é. Vou deixar aqui do lado da xícara pra lembrar.

- Teu pão pronto. Vem pegar.

- Ué, não sabia que a torradeira ainda tava funcionando.

- E eu não sabia que ela tinha parado de funcionar.

- O pão frio, mulher. Nem torrou. Você já usou alguma vez na vida uma torradeira?

- Não.

- Tudo bem, eu esquento no microondas mesmo.

- Mas vai ficar com aspecto de borracha.

- Que seja. atrasado, já.

***

- Opa, quente. Café novo?

- De ontem à tarde. Esquentado no microondas também.

- Ah.

- Tomou o comprimido?

- Puxa, é mesmo! O comprimido! Onde foi que eu deixei mesmo?

- Eu achei que você já tivesse tomado com água.

- Não, eu não consigo beber água de manhã.

- Não é isso aí grudado no seu cotovelo?

- Ah! Isso mesmo. Deixa eu mastigar esse pão, aí tomo o comprimido.

- Vai com calma.

- com pressa. Poxa, essa manteiga rançosa, hein?!

- Era a mais barata.

- pesquisou em todos os supermercados?

- Claro, tudo anotado.

- Mmfff. Que seja.

***

- Hoje chega mais tarde de novo?

- É, tem cerão. Fazer o quê? É preciso ganhar a vida.

- Sei.

- Eu já tomei o comprimido? Tava aqui do lado da xícara.

- Mas não está mais. Deve ter tomado.

- Ah! aqui, misturado com estes farelos de pão.

- Então vê se enfia logo goela abaixo, pra não esquecer de novo!

- Tem razão. Glupt.

- Você atrasado…

- Nossa! É mesmo! Pega meu casaco, que eu preciso escovar os dentes! Hoje eu não posso chegar atrasado, senão o chefe me mata!

- Que ironia. Ou você morre por chegar atrasado ou morre de tanto fazer hora extra.

- Não chora. Quando eu voltar eu trago pizza.

- Eba.

- Dá cá uma bitoca no maridão, vai!

- Até a noite.

- Até.

***

- Oi, patroa. Já cheguei pra faxina.

- Ah, pode entrar, Maria. Eu vou me trocar e volto pra te dar uma força. Enquanto isso pode ir recolhendo a mesa.

- certo, patroa.

- Pronto. Recolheu tudo certinho?

- Ahã. As xícaras tão na pia. O pão eu guardei no tapoér. A margarina foi pra geladeira.

- Certo.

- Eu só não sabia o que fazer com aquela balinha que tava entre os farelo

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* Pode reproduzir este conteúdo à vontade, desde que cite a fonte.

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Olá, pessoas. Vou começar a colocar sempre um comentário no final do texto. Esta crônica não está entre as minhas preferidas, não gostei muito do desfecho. Mas o legal das crônicas é a identificação com o próprio cotidiano. Eu mesmo, hoje cedo, quase não tomei um comprimido, achando que já tinha tomado. Culpa da cor da toalha de mesa. Pelo menos eu não o confundi com um farelo de pão, como o nosso amigo.

Aposto que isso já aconteceu com alguém que leu este texto também…

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Tap

março 5, 2010

- Anselmo, quantas vezes vou ter que dizer pra você parar com essa mania de cutucar o ouvido com a chave do carro?

- Mas, meu bem, isso é delicioso. Não tem sensação melhor…

- Que nojo, pai.

- Quieta, Mariana.

- Afinal de contas, esse moleque vem ou não vem?

- César! A praia é pra hoje! Já todo mundo no carro!

- Ai, meu Deus, por que esse menino tem que enrolar sempre? Parece uma noiva…

- Ai, mami, já aqui! Que coisa!

- E que franja é essa agora, criatura?

- Alôou! É o meu estilo, papi.

- Fala igual hômi, moleque!

- Ai! Não precisa ser grosso!

- Ih, já vai chorar.

- Ai, Anselmo! Ele só é muito emotivo. Deixa ele em paz.

- Grunf, que seja. Todos a bordo? Simbora!

- Ai, esqueci a chapinha!

- O quê?

- Minha chapinha, papi! Imagina como vai ficar meu cabelo depois de sair daquela água salgada! Preciso da minha chapinha.

Tap.

- Não estapeia a testa, Anselmo. Faz o retorno, que perto.

- Mamãe, quero fazer xixi.

- Ô, minha florzinha. Aproveita pra fazer agora…

- Não acha que já devia ter feito antes de sair, Mari?

- Deixa de ser ranzinza, Anselmo.

- Ai, meu Deus, por que fui nascer nessa família? To resistindo à tentação de cortar os pulsos…

- Ô, seu ingrato! Quer fechar esse bico? Anda, desce e vai lá pegar esse troço logo!

- Mamãe, eu não consegui segurar…

- O que foi Mari? Oh, meu Deus. Ce tá de fralda?

- Não.

Tap.

- Não estapeia a testa, Anselmo. Peraí, que eu vou lá pegar um paninho pra limpar o estofado.

Tap. Tap. Tap.

- Brilhante! A gente vai chegar lá pra ver o pôr do sol!

Cinco minutos.

- Cadê essa gente! Será que precisa de meia hora pra buscar aquele troço, mijar e trocar a menina? Onde será que estão as latas de cerveja, hein?!

Dez minutos.

- Mmm… vejamos, se eu tirar essa mala, esse cabo de guarda-sol e essa panela de farofa da frente, eu consigo alcançar o isopor de cerveja. Ops!

- Anselmo, tamo pronto! É só passar o paninho no banco do carro e… mas o que foi que você fez?

- Caham… eu queria pegar uma cerveja, mas a panela caiu.

- Olha essa calçada cheia de farofa, agora, meu-Deus-do-céu!

- Ai, que mico, to passado.

- Cala essa boca e vem me ajudar a levantar essa panela, moleque!

- Noossa, que pesada!

- Seja hômi, rapá! Ajuda aqui, Dolores! pesada!

- Oba, refrigerante! – Tsss… glub, glub. – Eca, que refrigerante amargo!

- Larga essa cerveja aí, menina! Não pode!

- Ai, meu pé, mami! derrubou essa panela na minha unha novinha!

Tap, tap, tap, tap, tap.

- Não estapeia a testa Anselmo! Me devolve essa lata aqui, Mari!

- Mami, a panela… Ai, que horror, zente!

- Fala igual hômi, muleque! Quer levar um tapa nas ideia?

- Ai, seu grosso!

- Mari, não come essa farinha! suja!

- Pronto, já arrumei a panela e peguei uns cinco sacos de farinha pra levar. Vamo embora logo, que lá a gente faz a farofa.

- Péra, que eu to terminando de varrer essa farofa toda aqui.

Tap.

- Não se estapeia, papi.

- Cala a boca e entra logo nesse carro, moleque perdido! Simbora, Dolores. Larga essa farofa aí!

- Todo mundo a bordo?

- Sim.

- Então botem o cinto. Não quero levar multa à toa.

Vrummm…

- Mamãe! Acho que fiz de novo!

- Comé que é? furada, menina?

- Shiu, Anselmo. Deve ter sido o gole de cerveja que ela tomou, por irresponsabilidade tua! Aqui, pega esse paninho e limpa ela, César.

- Por que ce tá chorando, Césinha?

- Snif, nada não, Mari. É que eu acabei de ver a chapinha que eu esqueci no teto do carro se estraçalhar na rua atrás da gente. Snif!

Tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap.

- Não estapeia a testa, Anselmo.

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Sexta-feira

fevereiro 26, 2010

Era uma vez uma mosca curiosa.

Certo dia, ela resolveu intrometer-se em um escritório.

Quando alguém abriu o compartimento de DVD, ela acabou voando para dentro da CPU.

Alguns dias mais tarde, o PC precisou ser formatado.

Na nota fiscal da manutenção, a descrição: bug no sistema.

Fim.


Pulso

fevereiro 12, 2010

Era uma vez um redator publicitário.

Seu trabalho era escrever textos publicitários.

Ele estudara para aquilo e sempre procurava ler bastante e se informar sobre estilos e recursos literários que o fizessem desenvolver um trabalho de qualidade. Mas os clientes não ligavam para isso e sempre sugeriam textos – segundo eles – melhores.

Os colegas de trabalho que atendiam o cliente também davam pitacos sobre algo que estava escrito. Por infinitas vezes o redator pesquisava, reunia informações e elaborava um texto incrível e vendável, mas o cliente simplesmente ignorava e colocava o texto dele – engessado, duro, intragável feito um bife velho.

Assim, de tanto ouvir máximas como “qualquer um escreve” ou “o cliente não gostou das 20 opções de texto e sugeriu uma melhor”, o redator surtou e resolveu cortar o pulso.

Dizem por aí que, durante o velório, enquanto uns e outros choramingavam, se acabavam no cafezinho ou contavam piadas, o pessoal da agência criticava o modo como ele escreveu sua carta de suicídio.

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AA

janeiro 28, 2010

- Olá a todos. Eu sou o Valter, trabalho como mestre de obras.

- Olá Valter!

- Eu bebia cachaça todo dia. Na falta de cachaça, mandava ver na cerveja. Se não tinha cerveja, eu chegava até a tomar o xarope pra tosse do meu filho, que tem uma porcentagem de álcool. Já fui internado várias vezes e meu filho tem bronquite crônica por causa disso. Hoje faz dois meses que não coloco uma gota de álcool na boca.

Palmas. Vivas.

- Boa noite, eu sou a Elisa, cabeleireira.

- Boa noite, Elisa.

- Eu era viciada, desesperada por álcool. Abastecia o carro todo dia, só pra sentir o cheiro do combustível. Por dezesseis anos substituí água por cerveja – inclusive pra fazer comida. Cheguei até a fazer gelatina de álcool em gel pra saber qual era o gostinho. Hoje faz oito meses e três dias que eu não sei o que é ingerir álcool.

Aplausos entusiasmados.

- Gente, meu nome é Romero. Posso compartilhar?

- Boa noite, Romero. Compartilhe.

- Eu gostaria de dizer que hoje sou um homem diferente. Eu bebia três garrafas de vodka por dia. Bebia pura, com limão e sal, com pimenta, com goiabada, com chocolate, com adoçante, com rapadura, com maracujá, só pra citar alguns. Mas não era só vodka. Sempre me amarrei em champanhe, whisky, saquê, cerveja preta, conhaque, vinho tinto, vinho branco, rum, gim, hidromel, tequila e absinto.

Silêncio.

- Mas o álcool traz muitos males. Eu sempre bebi, só que sempre andei na linha; quando bebia não dirigia, mas não vem ao caso. Minha casa tem adegas com várias dessas bebidas, mas hoje está trancada. Aliás, minha casa está trancada. Sabem, a bebida sempre me proporcionou status, mas eu nunca soube muito bem controlar isso. O álcool me separou de meu filho e de minha esposa. Eles foram juntos para a Europa, mas o avião se perdeu no Atlântico.

Silêncio absoluto.

- Ainda sofro muito com isso. Eu os amava, mas o álcool não me deixava demonstrar isso. Então, depois da tragédia, quando eu não estava bebendo, eu estava chorando.

Comentários compadecidos.

- Pouco tempo depois dessa tragédia, meu pai, já idoso, o único que tentava me apoiar, sofreu um infarto fulminante quando se preparava para se mudar pra minha casa. Continuei tristemente sozinho. Cheguei a comprar um cachorro pra me fazer companhia, mas ele acabou sendo atropelado, quatro dias depois.

Estarrecimento. Soluços comovidos.

- Para completar a história, hoje minha empreiteira decretou falência, fruto de uma má administração de minha parte. Então, resolvi vir aqui compartilhar com vocês, já que faz algumas horas que eu não tomo um gole sequer de álcool.

Ninguém bateu palma. Entre constrangido e deprimido, o líder resolveu terminar a reunião mais cedo.

- Cara, essa história toda me deprimiu.

- Nem me diga. Eu era cabeleireira do Romero. Era.

- Isso não é nada… snif. Eu trabalhava praquele cara…

 

- Poxa…

Silêncio. Entreolhares.

- Cês Têm alguma coisa pra fazer agora?

- Não.

- Nem.

- Bora pro bar?

- Bora!

 

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Natal

janeiro 5, 2010

- Colher?!

- Colher!

- Luz?!

- Lux.

- Vê se economiza esses fósforos!

- ‘Tô’ passando o fogo ‘pro’ jornal.

- Que seja. Me passa tudo.

- Devo ir vigiar o corredor?

- É só olhar pelo espelho que ‘tá’ na grade.

- Ah… o retrovisor de cela.

- Vou fingir que não ouvi…

***

- Não ‘tá’ faltando ar aí embaixo? Ouvi dizer que o fogo consome oxigênio…

- Que papo é esse?

- Aprendi no livro que o carcereiro me deu.

- Mas que bonitinho! O bandidinho ganhou um livro do carcereiro!

- É um livro de curiosidades. E já te disse que sou inocente!

- Sei, como todo mundo aqui dentro.

***

- Acho que bati em alguma coisa.

- Não é o encanamento?

- Ainda não dá pra saber.

- Consegue sentir a textura, pelo menos?

- O quê?

- É PVC ou cobre? Porque o PVC pode ser mais moderno, mas o cobre é muito mais eficiente para instalações prediais de tubos e conexões, além de ser amigo do meio ambiente.

- Cara, ‘cê’ é algum tipo de garoto propaganda da Tigre, é?

- Tecnicamente, a Tigre não usa materiais de cobre…

- Ora, quer calar essa matraca?! E me passa logo outra colher, que esta já está torta de tanto cavar!

- Não ‘tá’ disponível.

- Como assim, criatura?

- Não quero mais fugir.

- O quê?

- Resolvi usar o cérebro em vez da força física. Ler este livro me abriu a mente. Existe uma forma mais inteligente de escapar daqui. Mas se ainda quiser continuar cavando, vai fundo que eu te encubro.

- Ora, então fique sozinho, seu medroso estúpido!

- Como quiser. Vou tampar o buraco com os lençóis. Boa sorte.

***

- Quem é que precisa daquele idiota, com aquele papo de livro? Pô, que calor dos infernos aqui… onde será que isso vai dar…? Vejamos, pelo mapa (droga, lá se vai outro fósforo), parece que, se eu continuar nesse ritmo, tomando cuidado com os horários que poderei escavar, em mais 4 dias eu consigo chegar até a saída de esgoto e nadar para a liberdade…! E aquele trouxa, que quer sempre fazer tudo certinho, vai continuar na cela, trancafiado até ‘sabe-se lá quando’. Deixe-me ver, mais dois palmos e começo a escavar para a direita e… meu Deus, cadê o ar? Estou sufocando aqui dentro… ‘tá’ difícil até ‘pra’ raciocinar… tenho que voltar e pegar mais fósforos… mas pra onde fica a saída? Socorro!

***

- Olha, seu carcereiro, agradeço imensamente pelo livro, viu?!

- Imagina. Você tem mostrado um bom comportamento, filho. Por isso foi escolhido com mais alguns presos para ganhar o indulto de natal. Pode ir pra casa ver sua família, mas lembre-se que está em condicional e tem que voltar no dia e hora marcados no cartão. Assim que você voltar, eu verifico as chances de reduzir sua pena.

- Obrigado, senhor. Serei imensamente grato. Até logo.

- Vá com Deus, filho.

***

- Ele é mesmo um bom rapaz, não?

- Certamente, senhor delegado. Certamente.

- Socorro!

- Ouviu isso?

- O quê?

- Pareceu um grito abafado.

- Tem certeza?

- Sim, parece que veio debaixo da cama.

- Estranho… ali só tem alguns lençóis embolados.

- Pois é. Não faz sentido. Deve ter vindo do corredor lá embaixo. Volte ao seu posto, carcereiro.

- Sim senhor. Feliz natal, senhor.

- Feliz natal, meu bom homem. Feliz natal.

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Blackout

outubro 19, 2009

blackout1

- E agora, nós vamos brincar de quê?

- De estátua, até a luz voltar.

- E se a luz não voltar? A gente vai ficar estátua pra sempre?

- Eu não consigo mexer os dedos…

- Solta o controle do vídeo-game, ué.

- Mas aí eu vou colocar a mão onde?

- Melhor não sugerir…

- Ô galera, bem que a gente podia brincar de adivinhar coisas no escuro.

- Como assim?

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Frase do dia: Passos

agosto 18, 2009

Boa tarde, gente.

(cri, cri, cri…)

Serei breve, já que consegui respirar um pouco. Semana passada e essa semana estão sendo desgastantes… teve dia que fiquei trabalhando até as 2h da manhã. E as ‘perspectivas permanecem inalteradas’…

Ainda bem que hoje sobrou tempo para a frase do dia.

É do Felipe, goleiro do Santos, que pegou tudo na partida contra o Cruzeiro no final de semana.

Enquanto eu almoçava hoje, ele dava uma entrevista ao Globo Esporte, falando que foi emprestado, mas está de volta ao Santos e virou titular com o Luxemburgo:

“Às vezes você tem que dar dois passos pra trás para dar um passo pra frente…”

Né-por-nada-não, mas acho que não compensa… rs

Só quem conseguiu a façanha de fazer sucesso andando pra trás foi Michael Jackson.

Voltando ao esporte, conheço gente que faz sucesso andando atrás…


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