Absolto

março 16, 2012

O texto de hoje é uma poesia, que escrevi no intervalo de uma das aulas da Escola de Redatores, ano passado. Eu estava perto da janela e ventava bastante.
“Sinta” à vontade.

Absolto

O vento balança o mato

E mata

A vontade

De dar carinho.

O vento é travesso,

Assobia feito moleque

E despenteia

O cabelo.

Não por maldade,

Mas por carência.

O vento é só

E bipolar:

Ora sussurra,

Ora esbraveja.

O vento só quer ser

Sentido

E não ouvido.

Mas não tem jeito:

Às vezes ele precisa uivar

Pra fazer sentido.

E ainda assim

Tem gente que não sente

Tem gente que não ouve

Tem gente que não despenteia

Tem mato que não balança.

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Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.


Lindo dia

março 8, 2012

Hoje é o dia internacional da mulher. 
Entre os vários materiais de clientes relacionados a esta data, escolhi a mensagem que ficou mais verdadeira. Tanto que prefiro reescrevê-la aqui, do que simplesmente anexar o material com o nome do cliente. Espero que gostem.

Em tempo: obrigado por existir, mulher. 

Não precisa mudar o mundo,

Abrir sozinha o pote de azeitonas,

Ser exterminadora de baratas.

Não precisa discutir relação,

Cantar no chuveiro,

Devorar chocolate.

Não precisa falar de futebol,

Explicar a regra do impedimento,

Ou mudar de vez pra novela.

Não precisa dar um beijo estalado,

Odiar de mentira,

Amar de verdade.

Não precisa ser chefe,

Nem subordinada.

Não precisa ser nada.

Porque você já é tudo.

E a cada minuto,

Até quando não faz nada

Você já faz tudo valer a pena.

Feliz dia da mulher.

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Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.


Sangue

agosto 13, 2010

Homenagem a um grande camaradinha. Que descanse em paz.

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Eu te dou o céu

Para ser livre

Voar ao infinito

Sem preocupações

Sem medo

Sem distância

Você pode ter a noite

Com toda sua escuridão

Pode ter o dia

O calor

Qualquer paisagem

Você pode ter o mundo

Aos seus pés

Pequenos pés

Delicados pés

Mostre sua voz

Sua sinfonia

Às estrelas

Longe de mim

Eu me conformo

Se eu me machucar

E te dou o meu sangue

Mas pelo amor de Deus

Me deixa dormir sossegado

Seu pernilongo dos infernos.

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Cronograma

março 19, 2010

Girou as chaves pesadamente. Empurrou a porta e galopou para dentro do apartamento, obedecendo às rédeas. Fechou a porta da sala e abriu a porta da geladeira.

Uma luz gelada e hipnotizante.

Um interminável desabafo mudo.

Uma fatia de pizza resgatada.

Entrou no quarto e sentou-se na cama, que rangeu em protesto. Os sapatos foram arremessados para o canto.

Seus pés agora respiravam.

Sua mente, não.

Mais uma madrugada de dedicação para quê, afinal? O crédito jamais seria dado a ele.

Lembrou-se de piscar os olhos pela primeira vez, desde que entrou em casa. Uma lágrima escorregou, sendo rapidamente censurada – aquilo não era de seu feitio. Outras lágrimas brotaram, teimosas.

A gota d’água agora havia feito o copo transbordar.

O nó na garganta crescia segundo a segundo.

O corpo venceu a mente.

A cama o acolheu, cúmplice.

A gravidade puxou os cobertores sobre seus olhos.

O cronograma não seria cumprido.

Alguém seria demitido.

Aquele seria o melhor sono de sua vida.

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Anjos

fevereiro 5, 2010

Sono. Era tudo o que João sentia naquela sexta-feira. Por mais que tentasse prestar atenção à aula, não conseguia. Era como se tivesse um tijolo sobre suas pálpebras.

Aquela mosca chata passou novamente a alguns centímetros de sua orelha. João deu um pulo da cadeira, testando a perna da mesa com sua própria perna.

- Aaahh! – e tapou a boca.

A classe desatou a rir. A professora, surpresa, interrompeu a aula.

- Algum problema, João?

- N-não, professora… pode continuar.

A professora, desconfiada, esperou acabar a balbúrdia e voltou a escrever no quadro negro.

João agora se sentia mais acordado do que nunca. A canela não latejava – batucava. O nível de água dos olhos subiu rapidamente, mas João conseguiu segurar firme. A Talita não poderia vê-lo chorando de novo.

Ah, a Talita. Ela sentava na segunda carteira da fileira encostada na parede. Perto dela, Joãozinho adquiria gagueira imediatamente. Crônica. E ficava vermelho feito um pimentão.

É por isso que ele sentava duas fileiras depois, algumas carteiras para trás. Aquela posição era estratégica para observá-la. E como ela era bonita. Cabelo lisinho, olhinhos brilhantes e um sorriso que o deixava de pernas bambas. E uma espontaneidade pouco comum a uma criança de 7 anos.

No dia anterior, enquanto a professora não estava na sala, o Cadu começou a fazer “piadas de Joãozinho”. A sala passou a tirar sarro da cara do João, que ficou fulo da vida. A raiva e a vergonha foram tão grandes que ele baixou a cabeça e escondeu o rosto na mesa.

Todo mundo continuou rindo, menos a Talita. Ela saiu de seu lugar e veio até ele, dando um cutucão de leve em seu ombro. Quando Joãozinho (como passou a ser chamado pela turma depois disso) levantou a cabeça e deu de cara com a Talita, o mundo parou. Ele nem percebeu as lágrimas em sua bochecha, agora pegando fogo. Sem dizer nada, ela pegou em sua mão e o levou para tomar água.

No caminho até o bebedouro, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Depois de beber água, ele olhou à sua frente e viu Talita sorrir. Suas mãos até perderam as forças, mas ele segurou firme o copo. Com algum esforço, ele conseguiu balbuciar um “Obrigado”.

- É divertido ver você tomando água.

- P-por quê?

- Você fica vesgo.

E sorriu com doçura, espantando toda a tristeza daquele dia.

À noite, ele não conseguiu dormir direito, pensando nos olhinhos dela. Ficou lembrando o que sentira enquanto ela o salvava da humilhação. Parecia não existir mais ninguém naquele pátio enquanto ela o rebocava com aquelas mãozinhas de nuvem. Ela só podia ser um anjo. Um anjo que tira o sono. Devia ser por isso que ele estava com os olhos tão pesados hoje.

Mal sabia ele que, por motivos familiares, Talita seria transferida pra uma escola em outro estado, apenas alguns dias depois daquele episódio – e que, no dia de sua despedida, ele faltaria à aula por causa de uma gripe.

Mas os anjos são assim mesmo. Quando a gente menos espera, eles batem as asas e deixam conosco apenas a lembrança de seus olhinhos brilhantes.

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Promessa

outubro 6, 2009

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Eu sou um cara nostálgico. Gosto de lembrar das coisas que já me aconteceram e deixaram uma marquinha, por mínima que seja. Como a cicatriz que eu tenho no abdômen desde pequeno, resultado de um fio de arame saliente e uma subida mal calculada na carroceria de um caminhão. Ou a pele mais porosa e esticada de um joelho que adorava lamber o chão. Essas lembranças divertem e dão uma saudade gigante da época em que as preocupações ficavam só para os adultos.

Mas também existem as lembranças que não são físicas e, por incrível que pareça, doem muito mais. Lembro, por exemplo, de quando eu estava na pré-escola e era o único que já sabia ler, escrever e desenhar. Depois da aula sempre as professoras me davam papel e lápis de cor – mas nunca devolviam meus desenhos – enquanto eu esperava minha mãe vir me buscar. E ela sempre vinha sorrindo, de saião rodado, flutuando em sua bicicleta ‘rosa pink’. Eu achava o máximo pegar carona na garupa e a aguardava ansiosamente. ‘Ela falou que viria me buscar – promessa de mãe’.

Se tem algo que aprendi com minha mãe é sorrir sempre, apesar de às vezes o coração gritar de dor. A melhor arma daquela guerreira da bicicleta rosa era o sorriso, embora muitas vezes eu a tenha visto chorando no canto, cabisbaixa, soluçando baixinho, falando com Deus. Com ela, aprendi muita coisa, sem precisar dizer palavra alguma.

Às vezes penso que ter uma memória detalhista – ou, simplesmente, uma memória melhor do que as pessoas que te cercam – é como ser imortal. As pessoas simplesmente não conseguem se lembrar de algo que, para você, ainda é vívido. Só você se lembra. É como ver as pessoas indo embora, te deixando eternamente só.

Na última sexta-feira, minha mãe completaria 47 anos, se não tivesse me deixado abruptamente em 2003, sem ao menos se despedir.

Mas enquanto houver lembranças, sua memória ficará mais viva do que nunca. ‘Promessa de filho’.

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Especial

setembro 2, 2009

capacete_b

Tentou acelerar um pouco mais a moto para passar no sinal amarelo, mas não se pode exigir muito de uma 125cc.

Parou, desengatou e botou o pé esquerdo no asfalto. Aquele semáforo era o de três fases – dois minutos de espera o aguardavam.

- Era só o que me faltava…

Levantou a viseira do capacete e deixou o ar entrar por uns segundos.

Fechou os olhos. Tornou a abri-los.

Ao seu lado direito, o corredor de ônibus. Ele costumava compará-los a uma manada de elefantes brancos. Primeiro, porque essa era a cor da empresa de transporte. Segundo, porque é o que eles eram realmente: menos da metade da frota circulava pela cidade.

O sol já puxava as cobertas e alguns carros já trafegavam de lanterna acesa. O céu anunciava chuva – a garota do tempo não ousaria discordar.

Enquanto ele fitava o asfalto, outra moto parou ao seu lado. Era bem maior e mais potente que a sua. Cheirava a nova, inclusive. Mas o que despertou sua atenção foi o pezinho delicado que aterrissou no chão, feito pluma. Era um choque, uma quebra de paradigma.

Ergueu os olhos – mas não a cabeça – e pareceu sonhar. A cena era quase um erro. A criatura tinha o corpo feminino e delicado disfarçado por um macacão de motoqueiro surrado. As luvas grosseiras suprimiam mãos que poderiam ser de um anjo.

- Quase uma falha na matrix…

Quando ergueu a cabeça, os olhos de ambos se encontraram por meio segundo – o suficiente para fazê-lo estremecer. Lindos olhos de esmeralda, quase cristalinos. Quem mergulhasse neles correria o risco de se afogar.

Aquela visão sublime o levou a outro lugar, longe do barulho, do céu fechado, do semáforo de três fases. Estava voando, longe dali, de encontro ao silêncio inebriante, à paz absoluta.

Notou que algumas mechas do cabelo escapavam por baixo do capacete, embalados pela brisa. Lindos cabelos… brancos?

O tempo parou de vez.

Contemplou novamente a motoqueira destemida. O corpo grácil quase flutuava sobre a moto, que parecia ter mil vezes o seu peso. Os lindos olhos verdes eram ladeados por rugas risonhas, quase imperceptíveis sob o capacete. Sua verdadeira idade poderia revelar que ela era ainda mais frágil, que a cena estava ainda mais errada e sua suspeita ainda mais correta.

O anjo da moto possante acenou para ele, roncando o motor. O semáforo abriu. Atordoado, só agora ele se deu conta de que aquela linda criatura era mais especial do que ele imaginava, mas não conseguiria alcançá-la com sua 125cc.

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Palavras

agosto 24, 2009

Fonte: www.teachpeace.com/methodology

Tudo o que me motiva

É ao mesmo tempo

Tudo o que me impede.

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A alma sempre pede por algo mais

E me questiono:

Até quando

O muro que me protege

Vai aguentar a pressão

Já que os tijolos são feitos

De fracassos?

Será que esse material é bom?

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Sou cercado

Por demagogia

Discursos prontos, vagos

De gente que vomita palavras

Como se elas não fossem importantes

.

As palavras são cruciais

Mas ninguém enxerga isso.

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***

.

Não entendo

Por Deus, não entendo

O anseio que as pessoas têm

De mostrar que sabem

Mais do que você

Que, por falar difícil

Elas são mais altas

Mais prontas

.

Frases decoradas

Papo furado

Conteúdo zero

.

***

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Palavras, palavras

Que se transformam em lágrimas,

Em vômito, em tinta,

Em vazio

.

Palavras, eu as amo

Mais do que a mim mesmo

E talvez seja esse o meu defeito

Porque elas são apenas amigas

Passeando nos lábios de outros

Que as usam como objetos

Sem compreender seu real valor

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***

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O dia se foi

Pra mim já deu

Não quero mais vomitar palavras hoje.

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Loading…

agosto 5, 2009

loading...

Eu costumo ser alguém

Que se doa aos poucos

Que não se mostra de vez

E isso às vezes é ruim

Porque quase sempre

Juízes dão a sentença

Não por meu eu inteiro

Mas só por metade de mim.

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Beat

julho 29, 2009

O dia

Já se foi

E eu não consegui

Segurar

Sua cauda

Pedir calma

Pedir tempo

Quase nada

Para quem sempre

Busca o nunca

E nunca para

Como o tempo

Das batidas

Que algum dia

Já não mais

Estarão

Em meu peito.

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