O painel eletrônico mostrava o número 428. Ainda mais 12 pessoas, e sua vez chegaria. “De que adiantam essas 20 cadeiras, se a maioria das 200 pessoas que vêm ao banco fica em pé?”
Passou a observar as pessoas ao redor. O rapaz do caixa, com gel no cabelo e movimentos automáticos e, incrivelmente, lentos; a senhora que veio ao banco com um “bebê” de 8 anos no colo para conseguir atendimento preferencial; o tiozinho de boina puxando papo com uma mocinha de maquiagem pesada e alfinete na língua, que desafiava a si mesmo ao fazer bolas de chiclete colorido; o guardinha, com cara de sacana, apertando o botão que trava a porta giratória toda vez que alguém se aventurava a empurrá-la com impaciência.
432.
Ninguém levantou e, mesmo assim, o rapaz do caixa ainda acionou o painel por mais 3 vezes, fechando o caixa e saindo para almoçar depois de ter certeza de que chamara o 432 pela quarta vez.
Agora restavam dois caixas para atender aquela gente toda, sendo que um era de atendimento preferencial. Era incrível observar como as pessoas se fingiam mancas, grávidas ou mais velhas, só para serem atendidas mais rápido.
Mudou de posição, apoiando-se agora na perna esquerda. Sua lombar doia tanto que ele resolveu apoiar-se em um raro espaço livre da parede. Checou seu boleto mais uma vez, conferindo o dinheiro. Ah, como ele suara para ajustar o orçamento e continuar em dia com o governo…
Já passava das quatro agora – duas horas de fila. O guarda já fechara a porta de vez e cochilava, observado com curiosidade pelo “bebê” de 8 anos que devorava um pacote de bolacha água e sal, enquanto sua mãe tentava em vão o atendimento preferencial. A mocinha de língua furada, esparramada na cadeira, escutava sua música em volume máximo, embora o tiozinho de boina continuasse tagarelando.
O rapaz do gel no cabelo voltava do almoço, a camisa azul-pálido manchada de molho. Foram precisos ainda 2 minutos para que ele se ajeitasse atrás do balcão e acionasse o painel: 440. “Finalmente”.
Ele se descolou da parede e marchou triunfante para o balcão. Passou pelo “bebê”, que agora desamarrava a bota do guardinha, esbarrou de leve na mocinha do alfinete e precisou se esquivar do tiozinho tagarela que “alugava o ouvido” da moça do caixa preferencial. Conferiu novamente o dinheiro e chegou finalmente ao caixa, onde lhe esperava o rapaz com gel no cabelo e um formidável sorriso que revelava segredos de seu agitado almoço.
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