Noctâmbulo

julho 24, 2009

Com um leve clique, a porta se fechou – a aventura recomeçava. Mais alguns passos e o pequeno portão de madeira foi facilmente vencido.

À frente, o mundo.

Banhada pelo luar frígido, a rua de paralelepípedos lentamente recebia o carinho de pantufas macias, invólucros de pés hipnotizados.

Vicente, carpinteiro aposentado e sozinho, sempre tivera o sonho de conhecer a Baía de Guanabara, no Rio, mas nunca saíra de sua cidadezinha natal, no interior de Minas.

Mas ele sonhava.

E seus sonhos sempre eram tão intensos que não suportavam apenas ficar pululando em seu labirinto de sinapses. Em vez disso, eles criavam forma, asas, motores e sequestravam cada conjunto de células do organismo do pobre homem, a cada noite em que seu sono passava do primeiro estágio.

Assim, Vicente se imaginava em um enorme transatlântico em cruzeiro pelo litoral, singrando docemente as calçadas da cidadezinha sem praias – até porque Minas nunca teve esse privilégio.

Seus sonhos persistiam, cortando as ondas com aquele casco imponente de tecido. Seu corpo-refém manobrava em círculos pelo Oceano Atlântico, sem nunca adentrar a baía.

Mas, do convés do grande navio, ele a contemplava. Uma baía que “parece pincelada pelo supremo pintor arquiteto do mundo”, parafraseando o jesuíta Fernão Cardim. E como era linda! A fortaleza de Santa Cruz, o morro da Urca, o bondinho, a praia de Copacabana, a ponte Rio-Niterói…

Esse era o auge para os poucos vira-latas sem destino que acompanhavam seu espetáculo todas as noites. Se alguém o visse de perto, poderia facilmente notar a expressão sublime e extasiada em seu rosto, ao deixar o molho de chaves cair e deter-se de repente, enquanto em seus sonhos ele jogava a âncora e flutuava, à mercê da brisa salgada, cercado por golfinhos brincalhões.

Os minutos se atropelavam e Vicente permanecia incólume, encarando a madrugada leitosa, com os olhos longe dali. Os golfinhos deixavam de abanar o rabo e procuravam abrigo em algum beco.

Aos poucos, o transatlântico ia desaparecendo, devorado pela crueldade dos paralelepípedos úmidos. O bondinho e a ponte se esfacelavam, mar e baía implodiam no horizonte rural, ao fundo. A brisa do mar de repente já não era mais tão cálida. A noite o esbofeteava, o frio lhe enregelava os ossos.

Exausto e piscando fervorosamente, Vicente voltava a ser o carpinteiro sonhador. Lágrimas de frustração brotavam e desciam facilmente por sua face.

Abatido e sozinho, recolhia a âncora – sem a qual não abriria a porta – e retornava pesadamente para a casa.

A realidade triunfava mais uma vez.

O sonho, finalmente, devolvia os seus reféns.

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Slocum

junho 5, 2009

A chuva de granizos castigara a praia toda a manhã. No cais, todas as embarcações se encontravam atracadas por causa do mau tempo. Hoje ninguém se arriscaria a enfrentar o mar. Ou quase ninguém.

Slocum acordara cedo, já com o plano em mente. O frio era intenso e o horizonte anunciava uma nevasca.

- Perfeito.

Verificou as horas em seu relógio de lata de um só ponteiro – que seria mais útil para verificar a longitude – e colocou sua capa de chuva. O céu prometia.

Enquanto percorria o caminho até o cais, pensou e repensou diversas vezes sobre sua atitude. Agora já não tinha mais como voltar atrás.

Mais alguns metros e embarcaria em uma aventura sem volta.

Alguns flocos de neve brincavam à sua frente de vez em quando, repousando em sua barba. Sua respiração ofegante o transformaria em uma locomotiva humana se tivesse sido visto de longe. Se tivesse sido visto…

Seus pés chapinharam pela última vez na madeira úmida e escura do cais escorregadio. Seu Spray o esperava.

Checou mais uma vez a espingarda, velha companheira de tantas aventuras. Resolveu conferir mais uma vez o mapa das Américas que carregava consigo, com uma rota traçada até o rio Orinoco, na Venezuela, e um círculo feito de caneta no Brazil, com o “z” riscado e substituído pelo “s”.

Fechou os olhos e riu – o que lhe deu um ar infantil, apesar dos 65 anos. Içou as velas, que gotejaram gelo derretido em protesto.

Desamarrou as cordas, puxou lentamente a âncora e partiu, levando consigo nada mais do que um sorriso no rosto e peripécias na alma.

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Por acaso, essa crônica tomou um rumo diferente. Seria apenas mais um fragmento ao acaso, mas pesquisando sobre o assunto, “colidi” com Joshua Slocum, a primeira pessoa a fazer uma circunavegação do globo em solitário – ou seja, uma viagem ao redor do mundo com um veleiro simples, sem equipamentos, sem tecnologia e sozinho.

Essa crônica é inspirada nele e em um fato em especial.

Por isso, para entendê-la e saber mais sobre ele, aconselho a dar uma olhada nos links que me serviram de inspiração:

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Blog da Sabedoria Defunta [post que me inspirou].

A beleza de todas as coisas [narração subjetiva - e gostosa de ler - dos feitos de Joshua Slocum].

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Para saber um pouco mais:

Joshua Slocum – Wikipedia

Site da Joshua Slocum Society International

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Bom fim de semana para você.

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