Com um leve clique, a porta se fechou – a aventura recomeçava. Mais alguns passos e o pequeno portão de madeira foi facilmente vencido.
À frente, o mundo.
Banhada pelo luar frígido, a rua de paralelepípedos lentamente recebia o carinho de pantufas macias, invólucros de pés hipnotizados.
Vicente, carpinteiro aposentado e sozinho, sempre tivera o sonho de conhecer a Baía de Guanabara, no Rio, mas nunca saíra de sua cidadezinha natal, no interior de Minas.
Mas ele sonhava.
E seus sonhos sempre eram tão intensos que não suportavam apenas ficar pululando em seu labirinto de sinapses. Em vez disso, eles criavam forma, asas, motores e sequestravam cada conjunto de células do organismo do pobre homem, a cada noite em que seu sono passava do primeiro estágio.
Assim, Vicente se imaginava em um enorme transatlântico em cruzeiro pelo litoral, singrando docemente as calçadas da cidadezinha sem praias – até porque Minas nunca teve esse privilégio.
Seus sonhos persistiam, cortando as ondas com aquele casco imponente de tecido. Seu corpo-refém manobrava em círculos pelo Oceano Atlântico, sem nunca adentrar a baía.
Mas, do convés do grande navio, ele a contemplava. Uma baía que “parece pincelada pelo supremo pintor arquiteto do mundo”, parafraseando o jesuíta Fernão Cardim. E como era linda! A fortaleza de Santa Cruz, o morro da Urca, o bondinho, a praia de Copacabana, a ponte Rio-Niterói…
Esse era o auge para os poucos vira-latas sem destino que acompanhavam seu espetáculo todas as noites. Se alguém o visse de perto, poderia facilmente notar a expressão sublime e extasiada em seu rosto, ao deixar o molho de chaves cair e deter-se de repente, enquanto em seus sonhos ele jogava a âncora e flutuava, à mercê da brisa salgada, cercado por golfinhos brincalhões.
Os minutos se atropelavam e Vicente permanecia incólume, encarando a madrugada leitosa, com os olhos longe dali. Os golfinhos deixavam de abanar o rabo e procuravam abrigo em algum beco.
Aos poucos, o transatlântico ia desaparecendo, devorado pela crueldade dos paralelepípedos úmidos. O bondinho e a ponte se esfacelavam, mar e baía implodiam no horizonte rural, ao fundo. A brisa do mar de repente já não era mais tão cálida. A noite o esbofeteava, o frio lhe enregelava os ossos.
Exausto e piscando fervorosamente, Vicente voltava a ser o carpinteiro sonhador. Lágrimas de frustração brotavam e desciam facilmente por sua face.
Abatido e sozinho, recolhia a âncora – sem a qual não abriria a porta – e retornava pesadamente para a casa.
A realidade triunfava mais uma vez.
O sonho, finalmente, devolvia os seus reféns.
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Escrito por Tiasley