
Acordou, como de costume, às seis e meia. Sua primeira atitude não foi abrir os olhos, mas esmurrar o irritante rádio relógio. Virou-se para o outro lado, querendo só mais cinco minutos.
Sobressaltado, sentou-se na cama e viu que já eram sete e quinze – estava atrasado, como sempre.
Levantou-se com o coração a galope, rebocando a mente do mundo dos sonhos. Tirou o pijama com uma mão, enquanto a outra tentava simular uma cama arrumada. Colocou a calça, raptou uma camiseta da gaveta, calçou o tênis, esqueceu as meias. Tirou o tênis, tropeçou, beijou o chão com o cotovelo, deu um berro mudo. Colocou as meias, o tênis, a camiseta e voou para o banheiro. Tudo isso em menos de um minuto.
Abriu a torneira, escavou as remelas e tateou pelo tubo de pasta de dente. Na pressa de levar a escova à boca, a pasta saltou para a porcelana do lavatório, mas ele escovou os dentes mesmo assim.
Mesmo com a bile alvoroçada, tomaria café no escritório. Agarrou sua mochila, montou em sua Azulinha e pedalou para a sinfonia de buzinas matinais.
A Azulinha era sua companheira diária. Passava mais tempo com ela do que com sua mãe ou irmãos. Orgulhava-se por ser office-boy e considerava seu trabalho uma aventura.
No escritório de contabilidade em que trabalhava, todo mundo era gente boa. Menos a patroa, que só aparecia umas três vezes na semana pra pegar no seu pé por causa dos relatórios. Mas ele fazia tudo direitinho. Buscava pão na padaria, comprava risoles de carne para o Clodoaldo, tirava xerox, levava o alicate de unha da Zélia pra amolar, comprava cartucho recarregável para a impressora do seu Orlando, ia pagar conta no banco, além de pedalar a cidade inteira para levar e trazer documentos de clientes. Ele se sentia muito querido ali.
Mas agora era a parte do seu dia que ele mais gostava. Em meio ao hálito sufocante dos escapamentos, entre semáforos e faixas brancas, entre prédios e corações de pedra, ele se equilibrava em sua Azulinha, engolindo o vento da manhã com olhos aguados e agradecendo a Deus pelo dia.
Assim, absorto em pensamentos, ele atravessou a faixa de pedestres, sem notar que o motorista do carrão importado não teria a mínima intenção de respeitar o sinal vermelho.
***
No escritório, Zélia já se alvoroçava:
- Esse moleque está atrasado de novo. Eu falo que ele é irresponsável…
- Também não é pra tanto. O pior é eu ficar sem meu risoles. O café que eu tomei cedinho não foi suficiente.
- Por isso que ce tá barrigudo desse jeito, Clodoaldo.
- Gente, acabou meu cartucho. Cadê o boy?
- Não chegou ainda, seu Orlando.
- Mas eu preciso imprimir esses documentos agora! Ele tinha que estar aqui pra tirar cópia de tudo e ainda ir levar pra Receita Federal! Será que esse preguiçoso perdeu a hora?
- Pois é, quando a gente mais precisa...
- Também, cada um que você me contrata, Orlando. Não dá pra confiar direito nesse moleque. Até os relatórios dele têm erros de português!
- Ah, faça-me o favor, Marina. Esqueceu que eu também sou seu sócio? Não venha definir o rendimento do funcionário só por esses seus relatórios. Fora os atrasos, eu não tenho nada a reclamar dele.
- Mas hoje ele bateu o recorde, Orlando. Já são mais de oito e meia!
- E eu então, que continuo com fome? Se eu não estivesse tão ocupado, eu até daria um pulo na padaria da esquina. Mas isso, convenhamos, é trabalho dele.
- Alguém tem o telefone da casa dele?
- Não.
- Celular?
- Também não.
- Alguém sabe pelo menos o nome dele?
- A gente trata ele como “boy”…
- Eu sei que ele vem de bicicleta, uma que ele chama de Azulzinha.
- Você sabe o nome da bike e não sabe o nome do moleque?
- …
- Pois pra mim já passou dos limites. Se eu fosse você, Marina, mandava ele embora hoje mesmo. Já não é a primeira vez…
- Gente, acho que chegou alguém na recepção.
- E cadê o boy pra atender?! É brincadeira, viu?! Deve ser a dona Raquel, da casa de rações. Ela ficou de pegar uns documentos, mas o boy também não tirou as cópias e…
- Pode deixar que eu atendo, Zélia.
Enquanto Orlando quebrava a rotina e atendia o policial que estava na recepção, Zélia providenciava cópias de documentos, Clodoaldo ia até a padaria comprar risoles e Marina recebia uma ligação de seu marido dizendo que havia atropelado um rapaz de bicicleta.
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Escrito por Tiasley