Promessa

outubro 6, 2009

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Eu sou um cara nostálgico. Gosto de lembrar das coisas que já me aconteceram e deixaram uma marquinha, por mínima que seja. Como a cicatriz que eu tenho no abdômen desde pequeno, resultado de um fio de arame saliente e uma subida mal calculada na carroceria de um caminhão. Ou a pele mais porosa e esticada de um joelho que adorava lamber o chão. Essas lembranças divertem e dão uma saudade gigante da época em que as preocupações ficavam só para os adultos.

Mas também existem as lembranças que não são físicas e, por incrível que pareça, doem muito mais. Lembro, por exemplo, de quando eu estava na pré-escola e era o único que já sabia ler, escrever e desenhar. Depois da aula sempre as professoras me davam papel e lápis de cor – mas nunca devolviam meus desenhos – enquanto eu esperava minha mãe vir me buscar. E ela sempre vinha sorrindo, de saião rodado, flutuando em sua bicicleta ‘rosa pink’. Eu achava o máximo pegar carona na garupa e a aguardava ansiosamente. ‘Ela falou que viria me buscar – promessa de mãe’.

Se tem algo que aprendi com minha mãe é sorrir sempre, apesar de às vezes o coração gritar de dor. A melhor arma daquela guerreira da bicicleta rosa era o sorriso, embora muitas vezes eu a tenha visto chorando no canto, cabisbaixa, soluçando baixinho, falando com Deus. Com ela, aprendi muita coisa, sem precisar dizer palavra alguma.

Às vezes penso que ter uma memória detalhista – ou, simplesmente, uma memória melhor do que as pessoas que te cercam – é como ser imortal. As pessoas simplesmente não conseguem se lembrar de algo que, para você, ainda é vívido. Só você se lembra. É como ver as pessoas indo embora, te deixando eternamente só.

Na última sexta-feira, minha mãe completaria 47 anos, se não tivesse me deixado abruptamente em 2003, sem ao menos se despedir.

Mas enquanto houver lembranças, sua memória ficará mais viva do que nunca. ‘Promessa de filho’.

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O tempo

julho 6, 2009

O tempo é um sábio ancião de cabelos brancos e barba espessa, que sempre tem resposta para tudo. Existem coisas que só ele sabe dizer e feridas que só ele pode curar.

O tempo é um atleta teimoso e incansável, que não diferencia uma maratona de cem metros rasos. Mesmo o mais resistente competidor sucumbe à sua crueldade.

O tempo é um assaltante que, invariavelmente, faz reféns sem pedir resgate. E não importa quem se oponha, ele só aceita negociar com o próprio refém.

O tempo é um idoso astuto e sarcástico, que permanece à espreita em cada esquina, pronto para lançar no rosto de quem passa o erro cometido, o plano desfeito, o sonho acabado.

O tempo é um pássaro que carrega e ilude a humanidade em suas penas suaves e ossos ocos, com a única certeza de que estará sozinho ao final da viagem.

O tempo não perdoa ninguém, mas constrói o perdão. Sua intenção nunca é ferir, mas ensinar. Porque quanto mais dolorido é o ensino, mais eficaz é o aprendizado.

O tempo é um eterno e soberbo professor. Por isso, não importa o quanto e como se aprende, ele sempre se encarrega de mostrar que o ser humano será sempre um eterno ignorante.

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Expresso da Solidão

março 27, 2009

Engoliu um gole de café amargo e olhou em volta. Duas horas já haviam se passado. O vento enregelava-lhe até o último fio de seus cabelos já grisalhos.

No horizonte, o sol procurava abrigo. A noite seria longa.

Ao longe, o apito surdo do próximo trem o trouxe de volta à realidade. O último gole de café desceu gelado pela sua garganta. Ergueu-se pesadamente, inebriado pelo aroma do grande eucalipto que se despia aos poucos no pátio da estação deserta.

As primeiras estrelas já apareciam quando seus pés tocaram o último degrau do vagão de segunda classe. Na mala, apenas o que sobrara de seus poucos pertences. Na alma, o grito de dor, sufocado e enterrado bem profundo, sem forças para sair.

Entregou a passagem, acomodou-se no primeiro assento vago. O estofado desbotado confortou-lhe as costas cansadas, provendo-lhe algum alento. Encolhendo-se, recostou a fronte contra o vidro e inspirou doloridamente, soltando o ar ao poucos.

Lá fora, o breu. Dentro de si, a penumbra.

Um acesso de tosse, o burburinho dos passageiros, o tranco que indicou que o trem partiria.

Entorpecido em seus próprios pensamentos, encolheu-se ainda mais e encarou a janela, na busca inútil por algo lá fora que lhe avivasse os sentidos. Mas nada de fora pode consolar quando o interior é impenetrável.

Divisou a sombra do grande eucalipto e despediu-se com os olhos. Puxou a gola do casaco e protegeu-se do frio, sem ter com o que proteger sua alma.

De coração pesado, adormeceu, na esperança de esquecer. Esquecer pela primeira vez, ou quem sabe esquecer de uma vez por todas.

As pálpebras ocultaram-lhe as sombras e ele deslizou para dentro de si mesmo, arrastando sua própria dor pelo Expresso da Solidão.

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