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Eu sou um cara nostálgico. Gosto de lembrar das coisas que já me aconteceram e deixaram uma marquinha, por mínima que seja. Como a cicatriz que eu tenho no abdômen desde pequeno, resultado de um fio de arame saliente e uma subida mal calculada na carroceria de um caminhão. Ou a pele mais porosa e esticada de um joelho que adorava lamber o chão. Essas lembranças divertem e dão uma saudade gigante da época em que as preocupações ficavam só para os adultos.
Mas também existem as lembranças que não são físicas e, por incrível que pareça, doem muito mais. Lembro, por exemplo, de quando eu estava na pré-escola e era o único que já sabia ler, escrever e desenhar. Depois da aula sempre as professoras me davam papel e lápis de cor – mas nunca devolviam meus desenhos – enquanto eu esperava minha mãe vir me buscar. E ela sempre vinha sorrindo, de saião rodado, flutuando em sua bicicleta ‘rosa pink’. Eu achava o máximo pegar carona na garupa e a aguardava ansiosamente. ‘Ela falou que viria me buscar – promessa de mãe’.
Se tem algo que aprendi com minha mãe é sorrir sempre, apesar de às vezes o coração gritar de dor. A melhor arma daquela guerreira da bicicleta rosa era o sorriso, embora muitas vezes eu a tenha visto chorando no canto, cabisbaixa, soluçando baixinho, falando com Deus. Com ela, aprendi muita coisa, sem precisar dizer palavra alguma.
Às vezes penso que ter uma memória detalhista – ou, simplesmente, uma memória melhor do que as pessoas que te cercam – é como ser imortal. As pessoas simplesmente não conseguem se lembrar de algo que, para você, ainda é vívido. Só você se lembra. É como ver as pessoas indo embora, te deixando eternamente só.
Na última sexta-feira, minha mãe completaria 47 anos, se não tivesse me deixado abruptamente em 2003, sem ao menos se despedir.
Mas enquanto houver lembranças, sua memória ficará mais viva do que nunca. ‘Promessa de filho’.
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Escrito por Tiasley