Passagem

junho 18, 2010

Entrou no ônibus e acomodou-se nos assentos de idosos. Roupa surrada, chinelo de dedo. Sem dinheiro.

Encostou a cabeça na janela, apesar dos solavancos que o ônibus fazia.

Olhando para fora, fitou o vazio. Do lado de dentro, outros vários olhos se concentravam nele.

A viagem prosseguiu, apesar disso.

Em uma dessas paradas, dois rapazolas entraram de arma em punho.

Um deles foi direto ao cobrador. O outro pulou a catraca, instalando o pânico naquela meia dúzia de passageiros.

O rapazola do corredor “reuniu” alguns pertences alheios em uma mochila e repassou-a ao companheiro, saindo pela porta dos fundos.

Após terminar de “fazer a rapa” no cobrador e enfiar tudo na mochila compartilhada, o primeiro delinquente recuou rumo à porta da frente.

Esse foi o seu erro.

Um chinelo de dedo, recheado com um forte pé cascudo, tratou de desarmar o trombadinha, enquanto um pulso forte arrebatou a mochila e empurrou o moleque de encontro ao motorista.

O dinheiro e os pertences foram recuperados. Todos se sentiram felizes.

Na verdade, aliviados.

Ninguém aplaudiu.

Minutos depois a polícia fez sua visita ao ônibus, levando consigo o rapazola.

E botou ordem.

A viagem recomeçaria, mas agora sem a presença de seu herói sujo.

Ele não tinha dinheiro pra pagar a passagem.

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Reforma

janeiro 11, 2010

Era uma vez um ônibus chamado Idéia.

O motorista do ônibus, o herói, parecia apenas ocupar a poltrona, enquanto algumas colméias de engravatados zumbiam ao seu lado, discutindo sobre qual direção tomar.

Meia dúzia de geléias paranóicas ocupava duas, até três poltronas – havia assento até para suas jóias.

Nos fundos, uma tevê era disputada por uma alegre e desnutrida platéia, que se acotovelava por causa de um assento.

O cobrador, Tramóia, ocupava metade do ônibus, arrecadando passagens de todos a cada 30 segundos.

Várias jibóias engravatadas transferiam o dinheiro do caixa aos seus bolsos, meias e até cuecas, mas ninguém notava. Também pudera, a platéia estava de costas, ocupada demais tentando prestar atenção à novela e ao futebol. Se algo era descoberto, rapidamente era varrido para baixo do carpete.

Subitamente, o motorista herói avisou a todos que seria feita uma reforma. O Ideia ficaria sem assento.

As geleias paranoicas e suas joias perderam os assentos, mas ganharam confortáveis espreguiçadeiras.

Nas duas últimas fileiras, o assento foi retirado e a plateia nem percebeu, até porque a maioria não sabia usar assentos.

O cobrador Tramoia e as jiboias engravatadas perderam os assentos, o que não fez muita falta, já que eles preferiam as cifras.

As colmeias que zumbiam no ouvido do herói não ligaram muito para a falta de assento. Preocupavam-se mais com a falta de assunto.

O herói continuou tranquilamente sentado. Afinal, ele sabe que seu assento está garantido até o final desse quilômetro. E, para quem não sabe diferenciar “c” de “ss”, isso já é uma bela vantagem.

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Lavanda

abril 1, 2009

Mal saltou do ônibus e já teve que se apressar para conseguir pegar o próximo. Nas mãos, apenas um envelope com um currículo que sobrara. Pelo menos os outros 12 tinham sido entregues desta vez – 12 boas chances de finalmente conseguir um emprego. Até já tinha esquecido o mau agouro que sentira quando percebeu que só teria dinheiro pra imprimir 13 currículos.

- Tenho que pensar como o Zagallo desta vez.

Esbarrou em várias pessoas e se espremeu entre a multidão bem em tempo de esticar o braço e dar sinal para o ônibus de volta pra casa.

Fila para entrar no ônibus, que atingiu lotação máxima em 2 segundos. Mais 10 minutos até chegar ao cobrador, esboçando um sorriso amarelo e cansado:

- Posso ficar te devendo 5 centavos?

O cobrador era gente boa, figura conhecida, com bastante influência na empresa de transporte. Com um compreensivo sorriso de boca fechada, ele sussurrou entre os dentes:

- Claro, passa.

Gente boa.

Um quarto do percurso já se fora. Passou a catraca, parou por ali mesmo. Conseguiu agarrar um encosto de banco pra se segurar. O mormaço humano lhe dizia que ele não conseguiria tirar um cochilo no assento. Braços e mais braços agasalhados ao redor, e ele acabou com o nariz encaixado em uma axila nua e morena de um mulherão. Devia ter quase o dobro da altura dele.

Tentou não olhar pra cima, mas a curiosidade o venceu. Ele estava intrigado por aquele sovaco. “Deve ser sovaco de modelo”.

A cada instante que o ônibus sacolejava, ele tentava chicotear os olhos até aquele sovaco fenomenal. Algumas pessoas desceram do ônibus, muitas outras subiram. Ele estava mais próximo do sovaco, agora. Podia tocá-lo com a ponta do nariz, se quisesse. Inspirou fundo, disfarçadamente. “Ah, lavanda. Inebriante”. Ele poderia passar o resto da tarde ali, encantado pela axila morena. “Parece tão macio… eu poderia encostar a cabeça e tirar minha soneca bem aqui”. Estava apaixonado pelo sovaco.

Aos poucos o ônibus se esvaziava. Já era noite. Suas narinas estavam impregnadas por lavanda morena, delicadamente apaixonante. O cobrador dava cabeçadas, chicoteando de sono. O peso do dia caiu sobre suas costas e ele foi vencido pelo cansaço, cochilando em pé, inspirado pelo cobrador e pela lavanda. Alguns segundos de cochilo e ele acordou com um sobressalto. O cobrador ainda cabeceava, o motorista assoviava um sertanejo. No corredor do ônibus, somente ele em pé. Talvez tenham passado alguns minutos. Ainda sentia o cheiro de lavanda, mas o sovaco não estava mais lá. Seus olhos percorreram os assentos ocupados, mas a morena não estava lá. O sovaco já deixara o ônibus. Dentro de si, um vazio. Abaixou-se e apanhou o envelope que caíra de seu braço.

Desceu no próximo ponto, com uma tristeza inexplicável. O sovaco de lavanda partira, em um momento de fraqueza e cansaço. Ou teria sido um sonho? Sentiu um nó na garganta e resolveu ir direto pra casa. Sumiu na escuridão da esquina, carregando sem saber um envelope vazio. A algumas quadras dali, um travesti moreno de axilas impecáveis se maquiava para sua próxima apresentação, enquanto o chefe de uma empresa de ônibus recebia um currículo das mãos de um cobrador gente boa.

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