Mal saltou do ônibus e já teve que se apressar para conseguir pegar o próximo. Nas mãos, apenas um envelope com um currículo que sobrara. Pelo menos os outros 12 tinham sido entregues desta vez – 12 boas chances de finalmente conseguir um emprego. Até já tinha esquecido o mau agouro que sentira quando percebeu que só teria dinheiro pra imprimir 13 currículos.
- Tenho que pensar como o Zagallo desta vez.
Esbarrou em várias pessoas e se espremeu entre a multidão bem em tempo de esticar o braço e dar sinal para o ônibus de volta pra casa.
Fila para entrar no ônibus, que atingiu lotação máxima em 2 segundos. Mais 10 minutos até chegar ao cobrador, esboçando um sorriso amarelo e cansado:
- Posso ficar te devendo 5 centavos?
O cobrador era gente boa, figura conhecida, com bastante influência na empresa de transporte. Com um compreensivo sorriso de boca fechada, ele sussurrou entre os dentes:
- Claro, passa.
Gente boa.
Um quarto do percurso já se fora. Passou a catraca, parou por ali mesmo. Conseguiu agarrar um encosto de banco pra se segurar. O mormaço humano lhe dizia que ele não conseguiria tirar um cochilo no assento. Braços e mais braços agasalhados ao redor, e ele acabou com o nariz encaixado em uma axila nua e morena de um mulherão. Devia ter quase o dobro da altura dele.
Tentou não olhar pra cima, mas a curiosidade o venceu. Ele estava intrigado por aquele sovaco. “Deve ser sovaco de modelo”.
A cada instante que o ônibus sacolejava, ele tentava chicotear os olhos até aquele sovaco fenomenal. Algumas pessoas desceram do ônibus, muitas outras subiram. Ele estava mais próximo do sovaco, agora. Podia tocá-lo com a ponta do nariz, se quisesse. Inspirou fundo, disfarçadamente. “Ah, lavanda. Inebriante”. Ele poderia passar o resto da tarde ali, encantado pela axila morena. “Parece tão macio… eu poderia encostar a cabeça e tirar minha soneca bem aqui”. Estava apaixonado pelo sovaco.
Aos poucos o ônibus se esvaziava. Já era noite. Suas narinas estavam impregnadas por lavanda morena, delicadamente apaixonante. O cobrador dava cabeçadas, chicoteando de sono. O peso do dia caiu sobre suas costas e ele foi vencido pelo cansaço, cochilando em pé, inspirado pelo cobrador e pela lavanda. Alguns segundos de cochilo e ele acordou com um sobressalto. O cobrador ainda cabeceava, o motorista assoviava um sertanejo. No corredor do ônibus, somente ele em pé. Talvez tenham passado alguns minutos. Ainda sentia o cheiro de lavanda, mas o sovaco não estava mais lá. Seus olhos percorreram os assentos ocupados, mas a morena não estava lá. O sovaco já deixara o ônibus. Dentro de si, um vazio. Abaixou-se e apanhou o envelope que caíra de seu braço.
Desceu no próximo ponto, com uma tristeza inexplicável. O sovaco de lavanda partira, em um momento de fraqueza e cansaço. Ou teria sido um sonho? Sentiu um nó na garganta e resolveu ir direto pra casa. Sumiu na escuridão da esquina, carregando sem saber um envelope vazio. A algumas quadras dali, um travesti moreno de axilas impecáveis se maquiava para sua próxima apresentação, enquanto o chefe de uma empresa de ônibus recebia um currículo das mãos de um cobrador gente boa.
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