No quarto ao lado, vovó ciscava no teclado com a destreza de um jabuti. Ela resolvera fazer aulas de informática desde que vovô ganhara a cirurgia na Suíça, gentileza de um velho amigo, Dr. Paolo. Aprendera a enviar e-mails e, assim, mantinha contato direto com o tio Melo, que viajara para acompanhar tudo de perto.
Na tevê, um programa trash de uns caras estúpidos que ganham dinheiro para fazer coisas imbecis, como ficar pendurado pela cueca em um galho de árvore ou descer uma ladeira movimentada a bordo de um carrinho de supermercado.
- Adoro esse programa.
Da cozinha vinha um cheirinho gostoso de pão caseiro. Daqueles que só sua mãe sabe fazer, que nem bem saem do forno e já são assediados por dedos, facas e manteiga.
O pai estava viajando a negócios – como ele costumava dizer. Com a garagem do caminhão livre, ele poderia até bater bola na parede, mas faltava vontade. Não precisa ser filho único para compreender que as paredes são excelentes amigas.
Sua irmã, aquela mala sem alça, tinha saído com o novo namorado, o tal de Júlio. Cara esquisito e efeminado, que tinha um carrinho importado e jogava vôlei na praia aos domingos. Típico.
As marteladas compassadas no teclado pararam de repente. Vovó apareceu na sala, pálida. Encostou-se à parede, deslizando até o pufe azul e abraçando as pernas.
- Vitor…
Vitor olhou-a com expectativa. Já havia dois meses que vovô viajara. A cirurgia não seria imediata, ainda seriam realizados vários exames e testes. Desde que surgira a doença, vovó sempre tinha sido guerreira, permanecendo ao lado do vovô por todo esse tempo. Dava gosto de ver os dois juntos, era uma relação muito bonita. Vovô sempre foi mais carinhoso, compreensivo; vovó era mais sisuda, mas se derretia toda perto dele. Eram feitos um para o outro, de verdade. Quando surgiu a oferta do Dr. Paolo, vovó aceitou apreensiva, mas grata. Era a primeira vez que vovô sairia do país. Também era a primeira vez que eles se separariam. Tanto que o dia da despedida foi doloroso e emocionante. Sofrível, ele diria.
Em um átimo de segundo, o pior passou pela sua cabeça.
Mamãe, que vinha da cozinha, estancou junto ao sofá. Ambos olharam para vovó, temendo pelo pior.
Vítor respondeu quase num sussurro, a garganta seca:
- Sim…?
Vovó olhou para ambos com ar apreensivo. Respirou fundo, levantou-se devagar e andou até o tapete, com os braços para trás. Curvou-se e franziu o cenho, movendo a cabeça em direção a eles:
- O mouse parou de mexer.
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