Adultecer

setembro 13, 2013

calvin_hobbes

Adultecer é covardia

Que chega a doer

É desenhar limites

Sem giz nem pincel

Apequenar o mundo

Sem lápis nem papel

 

Adultecer é anoitecer

Achar que dá pra ser

Feliz no escuro

É preferir a luz da tela

Ver a vida pela janela

Construir o próprio muro

 

Adultecer é adulterar-se

Desvirar-se do avesso

Ser colibri sem asa

Ou cachorro sem mato

É matar a curiosidade

Antes que ela mate o gato

 

Bem que na vida a gente

Podia encriançar

Molecar por aí

Sem relógio no braço

Só um sorriso no rosto

E um universo pra desvendar

 

Se até Jesus dizia

Que tem que ser criança

Pra tocar o céu

Por que a gente insiste

Em pintar a cara

Com essa boca triste?

 

Que bem faria a peraltice

De fingir adultecer

Pregar uma peça no tédio

Porque nesse mundo doente

Ter o coração moleque

Ainda é um santo remédio.

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-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos.
Escrever não é tão simples assim.


Cheiro

agosto 12, 2013

sense-of-smell

Foi ao banheiro pela terceira vez, só naquela manhã.
O plano de beber bastante água estava dando certo.
O xixi estava até saindo transparente.
Lembrou da propaganda da Bonafont. Sorriu, enquanto abria o zíper.
Inspirou fundo, e a dor veio.
Subiu pelo nariz. A dor aguda da memória olfativa.
Ele não soube identificar se era o desinfetante.
Não sabia precisar se era aquele refil que penduram no vaso.
A memória olfativa é a mais cruel que existe, pois faz a saudade doer antes que a lembrança se forme.
Mas ele lembrou. Inspirou mais uma vez pra ter certeza.
Era o cheirinho que ficava no banheiro, sempre depois que sua mãe fazia a limpeza.
Aquela guerreira, que limpava a casa sozinha. Sem empregada, sem faxineira.
Junto com o cheiro do desinfetante, veio a lembrança de infinitos outros cheiros.
Do amaciante de roupas. Do almoço quase pronto. Do perfume, quase esquecido. Do shampoo que ela usava no cabelo.
E dos cheiros, mais lembranças. A risada espontânea. As frases de efeito, escritas no livro de receitas.
Os grampos de cabelo, que também serviam pra cutucar o ouvido. As provocações de mãe.
Os castigos e a cinta. O perdão demonstrado pelos olhos.
Os momentos de tristeza e fragilidade. As alegrias com a cachorrinha de estimação.
As musiquinhas murmuradas, enquanto lavava o quintal.
Ah, as musiquinhas. Aquelas, que ele ouvia com os irmãos, na vitrola.
Aquelas, que as crianças cantavam na igreja.
Aquelas, que a mãe ensinou a cantar quando o medo viesse, antes de dormir.
As lembranças se misturam, ligeiras.
O xixi flui. As lágrimas, ele tenta segurar.
E sorri com os olhos rasos d’água, enquanto aperta a válvula de descarga.
Não é sempre que ele mergulha nessas lembranças. Senão, não vive.
Amanhã vai fazer 10 anos que ela se foi.
Mas o dia a dia prova que ela continua viva. Em cada lembrança, em cada cheirinho do passado, e a cada vez que ele se olha no espelho.
Como agora, enquanto lava as mãos e se recompõe.
Enquanto pede força a Deus, mais uma vez.
E enquanto volta pra sua mesa de trabalho, pensando em despejar um pouquinho das lembranças na folha em branco.
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-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos.
Escrever não é tão simples assim.


De novo

julho 18, 2013

Créditos: Jorge PepeLife > jorgepepelife.cghub.com

E lá vem a dona Rotina
Com hálito de cemitério
E aquele hábito velho
De quem nunca imagina

Lá vem a véia caduca
Redondamente sentada
A bunda até fica quadrada
E não usa mais a cuca

Eis a senhora doente
Que pensa esbanjar saúde
“Quem não gosta, que se mude”
É sua fala recorrente

Olha só que belezinha
Essa anciã afável
Finge ser amável
Pra não morrer sozinha

Vem aí a velha chata
Que se enrosca no teu pé
Chega fazendo cafuné
Mas se bobear, te mata

Esse é só um pequeno trecho
De um poema redundante
E se não é o bastante
Leia de novo, desde o começo.

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-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos.
Escrever não é tão simples assim.


Atualização

julho 18, 2013

Não é a primeira nem a décima vez que faço o ligin no blog, mas não posto nada.

Não é por preguiça ou culpa. Tenho textos prontos, inclusive já publiquei vários no facebook, mas não consigo postá-los aqui.

Pode ser que isso signifique uma coisa: devo realmente mudar esse blog.

Pretendo escolher outro layout e publicar textos que tenham mais a ver com meu estado de espírito, no momento.

Amadureci bastante desde que comecei com esse blog, mas tenho um carinho muito grande por ele.

E é por esse carinho que vou mantê-lo. E vou voltar a postar textos aqui, não somente no facebook.

Vou rever algumas coisas, fazer uma limpezinha básica e revisar as categorias.

Ainda não vai ser agora agorinha, mas acontecerá.

Como prova, o próximo post já será de um texto mais atual meu.

E que venha mais inspiração, porque escrever é assim: quando você começa, não para nunca.

-|T|-


Planeta chão

agosto 7, 2012

Crédito imagem: tayangelina.blogspot.com.br

Caramujos mugem, conduzidos por microlesmas.
As minhocas foram incapacitadas pelo anzol.
Ouve-se um farfalhar de abelhas secas.
Folhas de mel zum-zum-zeiam.
O fim é certo. O vento se cansou de fazer cera.
Pedaços pesados de nuvens granizam.
Água gotejando estátua.
Gelo derretendo abelhas.
As minhocas se afogam, baleiando.
O mel lambe o vento.
O gado de caramujos se lambuza de folhas.
E microlesmas choram anzóis.
Seria diferente com um calendário maia.
Cabe uma ponta de interrogação.

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-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.

 


Quintal

julho 3, 2012

Resolvi sair e dar uma olhada no quintal. Ah, quantas lembranças me traz o quintal…! Lembro-me de um guri com, pelo menos, 80 centímetros a menos, esfregando a barriga – ora no concreto empoeirado, ora na terra macia. Aquele pequeno pedaço de terreno era um mundo à parte. De palpável, só a terra e o boneco do SOS Commandos.

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Não tinha importância se as coisas não funcionassem como no comercial da TV. Aquele era outro mundo. Ali, no quintal forrado de folhas e pequeninos pés de mandioca, o mundo era feito por ele. Bastava pegar uma colher de pedreiro, cutucar a terra, jogar água e – voilà – um lago era formado. E o herói era cruelmente submetido àquele rio selvagem cheio de perigos e aventuras, onde jacarés e tubarões conviviam, sem preocupação em saber se a água era doce ou salgada. E um roteiro inteiro era criado naquela mente infinita.

Em certos momentos, ele deixava o boneco de lado e vivia o herói, como se a câmera tivesse dado um close na cena. E ele se arrastava pela terra – um soldado com a perna machucada, perdido em meio a árvores gigantescas de uma floresta imaginária e desconhecida. E a história era escrita pouco a pouco, conforme o herói a vivia. Assim como a vida deveria ser.

O sol assistia a tudo, divertindo-se com a situação. As horas não eram gastas em frente a uma máquina; o brilho dos olhos não vinha da tela. Aquele herói de camiseta manchada, ora boneco, ora humano, criava um mundo onde podia ser feliz. Um mundo desconhecido e mágico, sem relógio no pulso ou tela sensível ao toque (bobagem: o coração humano é infinitamente mais sensível ao toque; pena que não pode ser ligado na tomada quando a bateria acaba).

“Sequoia”. Créditos: don j schulte @ oxherder arts (Flickr).

Assim, após enfrentar um crocodilo imenso no rio traiçoeiro, nosso herói chegava exausto à parte mais densa da floresta, onde subia nas gigantescas sequoias de mandioca para enxergar melhor a planície à frente. O que ele via eram varais de aço, sustentado por pregos no muro. Mas em seu roteiro eram grandes fios de energia, que permitiam ao boneco ir rapidamente de um lado ao outro – se conseguisse escalar a imensa muralha. A alta tensão não era perigo ali. Não tinha choque, apenas liberdade. A vida se encarregaria de deixar o guri chocado, anos mais tarde.

Sacolas de supermercado viravam paraquedas, que não obedeciam necessariamente à força do vento, mas à força da imaginação. A cachorrinha, ressonando no quintal, era um ser imenso. Talvez um dinossauro, ou um dragão como aquele que o guri tinha visto no filme História sem fim. Tão sem fim quanto as aventuras vividas toda tarde, naquele quintal tão dele.

História sem fim.

Certa vez, o boneco teve o pescoço dilacerado, de tanto que o guri ficava girando sua cabeça. Foi um choque. Era preciso uma cirurgia urgente. Na busca desesperada pela salvação de seu protagonista, o guri achou um alfinete, que deveria servir. Com um esforço cuidadoso, alfinetou o pescoço do boneco, entortou levemente o alfinete e encaixou a cabeça na abertura do corpo de plástico. Testou a cirurgia, girando a cabeça várias vezes. Ficou bem encaixadinho, a cirurgia tinha sido um sucesso. O herói não viu nada, não sofreu, apenas acordou dentro do buraco de um bloco de construção abandonado no quintal, perguntando-se o que tinha acontecido.

O guri-doutor não cabia dentro de si de tanta felicidade e orgulho. Deu um abraço apertado no boneco – e era como se estivesse abraçando a si mesmo. E tem coisa melhor do que um abraço? Basta dizer que é o momento em que a gente mais consegue aproximar, fisicamente, dois corações que se amam. Nesse caso, o guri abraçava novamente o seu mundo imaginário, fantástico, onde o protagonista não tinha capa vermelha ou máscara invocada e as histórias ainda não tinham sido escritas.

É incrível como as lembranças são deliciosamente insistentes, mesmo quando os momentos passados são tão curtos. Certas pessoas, brinquedos, animais – heróis ou não – passam por nossa vida por um curto período de tempo, mas de modo tão intenso, que deixam marcas mais profundas do que outras com as quais sempre nos encontramos.

O sentimento do guri pelo herói que salvava suas tardes dura até hoje, mas a convivência não chegou a completar um ano. Em certa ocasião, a professora da primeira série pediu para os alunos levarem seus bonecos para a escola. Ela levaria o castelo do He-Man para todo mundo brincar. Era algo totalmente novo – levar o herói a um ambiente que não fosse o quintal. Ambos estranharam viver alguma aventura diferente, em um mundo que não era deles. Era como visitar outro planeta.

Castelo do He-man.

Ao final da aula, a professora deixou o tempo livre para todo mundo brincar. O castelo era um barato. O herói, deslocado, apenas manuseou as armas e deu uma olhada na ponte levadiça. Preferiu voltar com o garoto para a carteira, onde foi apresentado a outros guris e seus heróis. Mas, em um momento de distração, o guri foi à frente falar com a professora e, quando voltou, o herói não estava mais perto de sua mochila.

O sinal tocou, a aula acabou, a professora e todos os alunos se alvoroçaram para juntar as coisas. O guri procurava desesperado por seu companheiro, mas ele havia simplesmente sumido. As filas de meninos e meninas foram formadas, a professora estava atrasada, todos estavam prontos e começaram a descer as escadas. Atordoado, o guri tentou em vão interromper a professora, que puxava as filas de alunos com seu braço rechonchudo. O guri gritava, mas ninguém ouvia. Ou talvez a voz não saísse.

O herói se foi para sempre e as aventuras foram morar na memória. Outros bonecos vieram, mas nenhum conseguiu substituir o soldado aventureiro. A dor está lá, fazendo companhia aos incríveis momentos de aventura. Aliás, muita coisa convive na memória, hoje já calejada por choques, dores e perdas inclusive piores. Mas ao passar os olhos e as lembranças por esse quintal uma última vez, tenho cada vez mais certeza de uma coisa: nós dois nunca mais seremos os mesmos.

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-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.


Suspiro

junho 18, 2012

O sangue

Escorre

Lava

Limpa

Devora

O tempo

Que vaza

E escapa

Pela ponta

Dos dedos

Sangrentos

Da alma

Aflita

Nobre

Solta

Em si

Cansada

De saber

Que não há

Mais tempo

Nem sangue

Nem ar.

 

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-|T|-

Reprodução permitida, desde que sejam dados os devidos créditos. Escrever não é tão simples assim.

 


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